Pular para o conteúdo principal

PANE NA MÁQUINA

O governo investe em segurança pública. Compra carros, motos, lanchas, aumenta salários dos policiais, organiza a carreira profissional deles. Como resultado a criminalidade aumenta, os policiais fazem greves e o tráfico de drogas explode nas periferias das cidades.

O governo investe em educação. Amplia o acesso à escola, reforma, constrói novas unidades, melhora os salários dos professores, dá material escolar e merenda de qualidade. Como resultado as escolas tornam-se espaços de violência, professores são ameaçados por alunos, a repetência cresce e o número de analfabetos funcionais é tão alto que não há sequer uma estatística oficial a respeito.

O governo investe em saúde. Constrói novos hospitais, compra equipamentos, estimula a formação local de médicos, reforma unidades sucateadas. Como resultado vários hospitais não têm enfermeiros e até médicos, as filas imensas de madrugada ainda persistem, chovem denúncias de abuso de poder por parte de servidores e na zona rural muita gente ainda morre sem atendimento.

O governo investe em ação social. Amplia o sistema de redistribuição de renda, cadastra dezenas de famílias todos os meses, acompanha crianças em situação de risco social. Como resultado os benefícios são usados como no antigo sistema de aviamento para pagar dívidas antes delas serem feitas, meninas têm filhos cada vez mais cedo de olho na contraprestação, larápios de classe média desviam cartões para si mesmos, amigos e parentes.

O governo investe em emprego. Constrói empresas para administrar com a iniciativa privada, oferece descontos e incentivos tributários, investe em infra-estrutura urbana, amplia o acesso aos mercados exteriores. Como resultado o número de desempregados aumenta, a concentração de renda se amplia, a indigência e a mendicância explodem e o tráfico vira alternativa de sobrevivência.

Não há algo errado, profundamente errado, nisso tudo?

Enquanto eu trabalhava nos jornais acreanos, via esses problemas como desafios a serem enfrentados por meio de um esforço das camadas médias da sociedade: imprensa, Judiciário, empresariado jovem etc. Considerava que minha caneta era um auxílio indispensável no processo e lutava com todas as forças para denunciar a proliferação dessas desigualdades.

Como eu estava enganado!


Demorei para perceber que não há como resolver os problemas acima citados porque eles se auto-retro-alimentam. O tráfico, por exemplo, alimenta-se da alienação individual que por sua vez deriva-se do desemprego cujo motor é uma organização social privatista, baseada na troca de favores e gentilezas, inclusive os sexuais, entre representantes políticos e outros líderes da sociedade.

Quando o núcleo da sociedade funciona dessa forma é possível fazer literalmente qualquer combinação entre os elementos acima citados, em qualquer ordem, e perceber que todo o restante da sociedade funciona caoticamente.

Há uma pane generalizada no tecido social.


Graças à essa auto-reprodução, não há mais governo que possa resolver isso. Nem os de situação e muito menos os de oposição.

Estamos condenados a viver em uma sociedade doente?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

CORTADOR DE CANA APRESENTA SINTOMAS DE EXAUSTÃO E OUTRAS DOENÇAS

Por dia, trabalhador flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento para cortar outras 3.792, em pé ou curvado. Ministério Público do Trabalho de Campinas suspeita de morte causada pelo trabalho no canavial. Estudo brasileiro apresentado durante o 30º Congresso Mundial de Medicina do Esporte observou que um cortador de cana, ao longo das 8h de sua jornada de trabalho, flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento de corte da cana outras 3.792. Além disso, na maior parte do tempo, o trabalhador permanece em pé (45%) ou curvado (43%). “Observou-se que o cortador de cana de açúcar apresenta sintomas de exaustão e outras enfermidades causadas pela dificuldade de execução do seu trabalho”, destaca o pôster da pesquisa conduzida por Erivelton Fontana de Laat, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Paraná), e Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, da Universidade Metodista de Piracicaba (São Paulo). De acordo com o texto, desde 2004, o Ministério Público do Trabalho da ci...

A CONSCIÊNCIA E O OLHAR

Indagado por uma pesquisadora sobre o que gostaria de ver na televisão, um jovem engraxate da favela da Rocinha (Rio) responde: "eu". Isto é logo interpretado como uma reivindicação de espaço por parte de "meninos, como ele, na faixa dos 10 aos 18 anos, para os quais não existe nada em termos de teatro, lazer e cinema". A interpretação encaminha claramente a resposta do entrevistado na direção dos interesses de programação da instituição televisiva a que se vincula a pesquisadora. Seria a manifestação do desejo de um telespectador insatisfeito com a oferta habitual de conteúdos da televisão. O atendimento à demanda ratificaria as linhas gerais do juízo de função psicossocial que a organização televisiva costuma fazer sobre si mesma. Entretanto, para melhor entender a natureza do fenômeno da televisão, começaremos tomando ao pé da letra a resposta do pequeno engraxate: ele desejaria ver a si mesmo enquanto indivíduo concreto - não como índice de uma abstrata méd...