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ADÃO MORDEU A MAÇÃ


O período dos descobrimentos foi também o da acumulação primitiva do capital. A violência se abateu sobre os povos conquistados. As chamadas nações cristãs suplantaram, em terror, todos os povos passados.


Num dos capítulos mais conhecidos de “O Capital”, A chamada acumulação primitiva, Karl Marx se refere ao período dos descobrimentos dizendo que os prenúncios da produção capitalista já apareciam, em algumas cidades mediterrâneas, nos séculos XIV e XV, mas “a era capitalista data do século XVI”. Informa que “uma acumulação que não decorre do modo capitalista de produção” é o seu ponto de partida.

“Essa acumulação primitiva desempenha na economia política um papel análogo ao do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e, por isso, o pecado contaminou a humanidade inteira. ... A lenda teológica nos conta que o homem foi condenado a comer o pão com o suor de seu rosto. Mas a lenda econômica nos explica o motivo por que existem pessoas que escapam a esse mandamento divino. Aconteceu que uma elite foi acumulando riquezas, e a população vadia ficou finalmente sem ter outra coisa para vender além da própria pele. Temos aí o pecado original da economia”.

A essa visão idílica, Marx contrapõe “o grande papel desempenhado na verdadeira história pela conquista, pela escravização, pela rapina e pelo assassinato, em suma, pela violência”. Diz que “a expropriação do produtor rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo o processo” na Europa Ocidental. Mas a “marcha lenta do período infantil do capitalismo não se coadunava com as necessidades do novo mercado mundial criado pelas grandes descobertas dos fins do século XV”.

Continua o autor, na sua obra-prima: “As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada comercial de negros são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista”.

Diferentes países, principalmente Espanha, Portugal, Holanda, França e Inglaterra, valeram-se do poder do Estado, “a força concentrada e organizada da sociedade, para ativar artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção no modo capitalista, abreviando assim as etapas de transição. A força é o parteiro de toda sociedade velha que traz uma nova em suas entranhas. Ela mesma é uma potência econômica”.

Marx cita, então, um trecho de “Colonization and Christianist. A popular history of the treatment of the natives by the Europeans in all their colonies”, escrita em 1838 por William Howitt, que se especializou no papel do cristianismo no período:
“As barbaridades e as implacáveis atrocidades praticadas pelas chamadas nações cristãs, em todas as regiões do mundo e contra todos os povos que elas conseguem submeter, não encontram paralelo em nenhum período da história universal, em nenhuma raça, por mais feroz, ignorante, cruel e cínica que se tenha revelado”.

O tratamento que se dava aos nativos era mais terrível nas plantações destinadas à exportação, narra Marx, “como as das Índias Ocidentais, e nos países ricos e densamente povoados, entregues à matança e à pilhagem, como México e Índias Orientais. Todavia, mesmo nas colônias propriamente ditas, não se desmentia o espírito cristão da acumulação primitiva. Aqueles protestantes virtuosos e austeros, os puritanos da Nova Inglaterra, estabeleceram, em 1703, por deliberação de sua assembléia, prêmios de 40 libras esterlinas por cada escalpo de pele-vermelha ou por cada pele-vermelha feito prisioneiro; em 1720, um prêmio de 100 libras por cada escalpo; em 1744, depois de Massachusetts Bay ter declarado certa tribo em rebelião, os seguintes preços: 100 libras de nova cunhagem por escalpo masculino, de 12 anos ou mais, 105 libras por homem capturado e 50 libras por mulher ou criança capturada, e por escalpo de mulheres ou crianças, 50 libras!”.

O sistema colonial fez prosperar o comércio, a navegação e a concentração do capital. “As riquezas apresadas fora da Europa pela pilhagem, escravização e massacre refluíam para a metrópole, onde se transformavam em capital”, diz o fundador do materialismo histórico, lembrando que, se o dinheiro, segundo Marie Augier, “‘vem ao mundo com uma mancha natural de sangue numa de suas faces’, o capital, ao surgir, escorrem-lhe sangue e sujeira por todos os poros, da cabeça aos pés”.

Esse sangue e sujeira escorreram com as bênçãos das várias seitas que, com a arma numa mão e o Evangelho na outra, propagavam o reino de Deus na vida além-morte enquanto semeavam um inferno dantesco para os povos nativos das colônias. No caso das terras hoje brasileiras, os nativos foram considerados primitivos selvagens, endemoninhados, e também, como seres sem maldades, “bons selvagens”.


Fonte: Portal Vermelho.

Comentários

Elisielly disse…
Nossa, nunca tinha visto a economia com esses olhos... Muito bom esse texto!
Jozafá Batista disse…
Elis, obrigado e volte sempre!
.
No blog há uma postagem com um link para download do livro "Os demônios descem do norte", do sociólogo Delcio Monteiro de Lima. Como você gostou do tema, sugiro a leitura.
.
Beijos!
Elisielly disse…
Hahaha!! Engraçado você sugerir a leitura dessa postagem, porque foi justamente por causa desse livro que encontrei seu blog... Já fiz o download, e já comecei a ler... Tentei postar um comentário lá, mas não consegui. Quando eu terminar de ler o livro, tento novamente. Religião é sem dúvida meu tema favorito *-*
Beijos.

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