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Mostrando postagens de junho, 2010

GRAMÁTICA E PODER

Por: Monteiro Lobato, 1922. - Pilhei a senhora num erro! - gritou Narizinho. A senhora disse: "deixe estar que já te curo!" Começou com Você e acabou com o Tu, coisa que os gramáticos não admitem. O "te" é do "Tu", não é do "Você"... - E como queria que eu dissesse, minha filha? - Para estar bem com a gramática, a senhora devia dizer: "Deixa estar que eu já te curo." - Muito bem. Gramaticalmente é assim, mas na prática não é. Quando falamos naturalmente, o que nos sai da boca é ora o você, ora o tu - e as frases ficam muito mais jeitozinhas quando há essa combinação do você e do tu. Não acha? - Acho, sim, vovó, e é como falo. Mas a gramática... - A gramática, minha filha, é uma criada da língua e não uma dona. O dono da língua somos nós, o povo - e a gramática o que tem a fazer é, humildemente, ir registrando o nosso modo de falar. Quem manda é o uso geral e não a gramática. Se todos nós começarmos a usar o tu e o você mistura...

DEMOCRACIA

Está lá, no 1º artigo da Constituição Federal: “Todo o poder emana do povo”. Significa, entre outros pormenores, que todas as representações do Poder Público têm como origem o corpo de cidadãos. Logo, uma democracia se caracteriza quando o poder, o poder decisório, de governar a vida social, pertence aos cidadãos (e não ao rei, como ocorria nas monarquias absolutistas). Se é assim, por que os indivíduos (cidadãos) não governam o Estado? Os indivíduos não governam porque votam. O voto é uma alienação do poder. Ao votar o cidadão abre mão do seu direito de governar o Estado, nomeando em seu lugar um ou mais representantes. Esses representantes são os políticos: vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e o presidente da República. Por isso votar tornou-se tão importante em nosso regime político. O voto é antes de tudo um ato de transferência: o eleito ganha o poder de representar não só as pessoas de quem obteve votos, mas toda a sociedade....

A TESE DE IVAN KARAMAZOV

Por: Antonio Cicero Volta e meia alguém traz novamente à tona a famosa tese de Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: "Se Deus não existe, tudo é permitido". Acho que muita gente acredita piamente nela e atribui à irreligiosidade da população a constante e inquietante alta dos índices de criminalidade. Será talvez com a intenção de baixar esses índices que os donos ou editores das revistas brasileiras de circulação nacional raramente deixam passar uma semana sem que, ao menos numa das suas revistas, façam propaganda, numa reportagem de capa, da fé e da religiosidade dos brasileiros. Ora, a tese do personagem de Ivan não resiste a um simples experimento de pensamento. Suponha que me apareça Deus e me ordene matar o meu filho (ou mãe, ou pai, ou irmão, ou amante, ou amigo). Que faria eu? Ponha-se o leitor na minha pele. Não tenho dúvida de que a minha primeira reação - a primeira reação de qualquer pessoa que não tivesse perdido o juízo - seria duvidar do que parecia estar ...

OLIGARQUIA, MONARQUIA, TEOCRACIA

No Acre se pratica antipolítica. De 1904 a 1961 o governo foi exercido por interventores, a maioria militares, nomeados pelo governo federal. Em 1962 chega ao poder o primeiro governador eleito, o petebista José Augusto de Araújo. Não dura dois anos. O golpe de 64 derruba ele e todos os governadores que ascenderam ao cargo por voto direto. Somente em 1982, com o Acre em seu 78º ano de idade, os cidadãos elegem o primeiro governador que concluiria o próprio mandato: Nabor Teles da Rocha Junior . Ou seja, de 1904 a 1981 o Estado forjou uma consciência política ao arrepio das tradições democrático-representativas. Mesmo as eleições de José Augusto e Nabor Júnior foram conduzidas por legislações eleitorais draconianas que inviabilizavam o direito ao voto livre (aliás, vale dizer, ainda hoje o voto não é livre no Brasil). Em 2010 temos mais evidências do legado cedido por esse passado autoritário. O primeiro é Rodrigo Pinto, cuja candidatura ao governo do Estado, felizmente gongada por sua...

ACRE NÃO DITO

Foi/Deus quem nos deu/esse lugar... Clique na imagem.

O DIREITO À DÚVIDA

Causou furor uma postagem no Twitter inicialmente atribuída à candidata à presidência da República pelo PV, Marina Silva, sobre a morte do escritor José Saramago. "Como podemos lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda?", dizia o texto. Não entrarei no mérito da confusão gerada pelo episódio, até porque a equipe de campanha da candidata já se desdobrou - confira aqui - para mostrar que tratou-se de um equívoco. O que me chamou a atenção foi um problema filosófico esquecido no debate e que consiste no seguinte: qual é o nascedouro da concepção segundo a qual é possível contrapor o direito à fé pessoal ao debate crítico? Em outras palavras: como se pode conceber a validade do argumento que esgrima um valor pessoal - no caso, a fé - como critério para eliminar possibilidades de crítica? Este foi, naturalmente, o argumento da "leitora" (e provavelmente, eleitora) de Marina Silva e que se inseriu no debate de forma curiosa: como a fé é um ...

JANELA DA ALMA

Da filósofa Marilena Chauí, em seu Convite à Filosofia : "Frequentemente, não notamos a origem cultural dos valores morais, do senso moral e da consciência moral porque somos educados (cultivados) para eles e neles, como se fossem naturais ou fáticos, existentes em si e por si mesmos. Por que isso acontece? Porque, para garantir a manutenção dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a geração, as sociedades tendem a naturalizá-los, isto é, a fazer com que sejam seguidos e respeitados como se fossem uma segunda natureza. A naturalização da existência moral esconde, portanto, a essência da moral, ou seja, que ela é essencialmente uma criação histórico-cultural, algo que depende de decisões e ações humanas." Para reconhecermos isso, basta, aliás, considerarmos a própria palavra moral : ela vem de uma palavra latina, mos , moris , que quer dizer "o costume", e no plural, mores , significa os hábitos de uma cultura ou de comportamento i...

O MUNDO MAIS BURRO

O escritor português e Prêmio Nobel de Literatura José Saramago morreu nesta sexta-feira em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, aos 87 anos. Segundo a família, a morte ocorreu por volta das 13h no horário local (8h de Brasília), quando o escritor estava em casa, acompanhado da mulher, Pilar del Río. Leia mais, clique aqui .

A CAPRICHOSA ARTE DE DESEMPREGAR

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Acre (FIEAC), João Francisco Salomão, publicou no último dia 7 (sábado) um artigo intitulado “ O pecado original de empregar ”, que todos deveriam ler com atenção pela competência com que defende a perspectiva do empresariado acreano. Salomão segue a cartilha nacional definida por sua classe, a classe dos patrões, para apresentar uma agenda local nos jornais de maior circulação do Estado. No mesmo estilo dos periódicos veiculados por associações patronais, sempre ciosas na difusão de idéias importantes para si mesmas, o texto levou à imprensa diária bordões próprios daqueles panfletos: o emprego prejudica a empresa, inviabiliza a atividade produtiva! Abaixo os impostos! Como sempre ocorre em períodos eleitorais, os empresários acentuam as suas pautas que são apresentadas à sociedade como constatações gerais da própria sociedade, e não deles mesmos. Mas os fatos que embasam qualquer pleito podem ser analisados, discutidos, e ...

ALIENAÇÃO E FUTEBOL

Vi no programa Gazeta Alerta de hoje uma matéria curiosa em que uma educadora do Instituto São José comentava a "importância da educação sobre a Copa do Mundo" para compreender esse momento de "confraternização entre as nações". Muito importante, de fato. Como ao invés de "confraternização" interna temos violência e péssima qualidade da educação (como se vê), projetar nossas necessidades nos outros, ou seja, no exterior, ajudará muito - na eliminação da pobreza, por exemplo. Transcrevo a seguir um texto da filósofa Marilena Chauí sobre a origem e a função social desse tipo de alienação criada pela Ditadura Militar e que se chama verde-amarelismo (clique para saber mais). É o tipo de mito perfeito para sociedades com larga tradição de paternalismo estatal: Na escola, todos nós aprendemos o significado da bandeira brasileira: o retângulo verde simboliza nossas matas e riquezas florestais, o losango amarelo simboliza nosso ouro e nossa...

EXEMPLO PARA O ACRE

Londres lança a moda dos cycle cafés Do Estadão Estacionar não leva mais do que dois minutos ao chegar de bicicleta ao Look Mum No Hands! , o mais novo cycle café de Londres, aberto há um mês. Encontrar um lugar para se sentar também não é motivo de estresse, pois o galpão de 1.500 metros quadrados em Old Street tem mesas compridas onde ninguém se importa em dividi-las. A decoração, quase 100% de móveis e materiais recicláveis, traduz a filosofia do lugar, onde reaproveitar é um dos lemas. "Os copos são diferentes uns dos outros, pois compramos todos de segunda mão", diz Matthew Harper, dono do café. A ideia era criar um espaço onde os aficionados pudessem fazer lanches enquanto vissem competições de ciclismo. Mas Harper resolveu agregar ao local uma oficina para pequenos reparos e alguns extras. "A gente promove workshops , vende livros e divulga eventos", diz. Enquanto espera pelo conserto da bike , o cliente pode escolher opções como saladas de ...

A CONTRADIÇÃO DA GREVE

Exibir mapa ampliado Incluídas as sinuosidades e curvas, Rio Branco mede 20,5 Km entre os bairros Vila Custódio Freire e Vila Acre. Nesse curto intervalo os trabalhadores de transporte público vêm fazendo uma greve que, no dizer da nossa imprensa, criou um "caos na capital". Seu Luiz Isidoro, que mora no aqui no finalzinho da 6 de Agosto, ganha a vida limpando quintais. Nem ele, nem a mulher Sofia, nem mesmo os cinco filhos, todos estudantes de escola pública, usam ônibus. Não porque não querem, mas porque não podem. "Três e oitenta no orçamento pesa, né?", comentou comigo em certa ocasião. "Imagina sete e sessenta, se for voltar pra almoçar em casa? Dá pra comprar um quilo de costela e fazer um cozido!" Luiz vai ao trabalho de bicicleta. É de magrela que todo dia ele deixa na escola a filha caçula, Iana, de seis anos e meio, e vai buscá-la no fim da manhã. A bicicleta, qualquer rio-branquense atento sabe, é de longe o transporte "oficial" dos tr...