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A CONTRADIÇÃO DA GREVE


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Incluídas as sinuosidades e curvas, Rio Branco mede 20,5 Km entre os bairros Vila Custódio Freire e Vila Acre. Nesse curto intervalo os trabalhadores de transporte público vêm fazendo uma greve que, no dizer da nossa imprensa, criou um "caos na capital".

Seu Luiz Isidoro, que mora no aqui no finalzinho da 6 de Agosto, ganha a vida limpando quintais. Nem ele, nem a mulher Sofia, nem mesmo os cinco filhos, todos estudantes de escola pública, usam ônibus. Não porque não querem, mas porque não podem. "Três e oitenta no orçamento pesa, né?", comentou comigo em certa ocasião. "Imagina sete e sessenta, se for voltar pra almoçar em casa? Dá pra comprar um quilo de costela e fazer um cozido!"

Luiz vai ao trabalho de bicicleta. É de magrela que todo dia ele deixa na escola a filha caçula, Iana, de seis anos e meio, e vai buscá-la no fim da manhã.

A bicicleta, qualquer rio-branquense atento sabe, é de longe o transporte "oficial" dos trabalhadores informais e mesmo formais da capital.

Faz todo o sentido, numa cidade de perímetro urbano minúsculo, cuja explosão da violência acompanha fielmente o crescimento dos bairros periféricos e o fenômeno da subproletarização trazido pelo "progresso".

Não vou aqui negar as dificuldades enfrentadas por vários trabalhadores para chegar ao trabalho nesta greve. Só quero lembrar onde estamos e como vivemos. Em Rio Branco, trabalhadores como Seu Luiz gastam R$ 91,2 ao mês com ônibus. Quem almoça em casa paga o dobro (e se a empresa não der o almoço a despesa multiplica-se duas, três vezes).

A questão fundamental é que transporte coletivo em Rio Branco, sem greve, é tão público quanto os meios de comunicação são sociais.

Transporte é privado, e foi com base na lei do lucro que as empresas de transporte, concessionárias deste serviço pela Prefeitura, recolheram os ônibus às garagens quando perceberam que os trabalhadores pretendiam circular de graça - daí porque "paralisou 100%" da frota de ônibus na última segunda.

Sendo assim, qual o sentido de bradar contra os grevistas? Não é mais fácil compreender a contradição trazida pela greve, que expôs a indústria do transporte "público" em uma cidade de 20,5 Km de extensão?

Por que tanto impasse?

Uma vez que sem greve o direito público ao transporte é questionável, na greve o interesse prevalecente é o dos trabalhadores no transporte. Está com eles a geração de riquezas que vai para os bolsos dos empresários (verdadeiro motivo de tanto chororô dos patrões). Está com eles, também, a possibilidade de melhorar o transporte “público” na plutocracia reinante em Rio Branco.

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