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O CAJADO DE MOISÉS

O deputado estadual Moisés Diniz (PCdoB) chamou hoje a imprensa para dizer basicamente que não representava o governo ao receber, um dia antes, o Comando de Greve dos Trabalhadores em Educação (Sinplac e Sinteac). Disse que tratou-se de uma iniciativa pessoal, em consequencia de sua "posição política", que seria fruto do que ele, Moisés, pensa em relação à política.

A verdade é que o nobre parlamentar discutiu alternativas para pôr termo ao movimento grevista - algo que, por um desses acasos bem casuístas da terra-de-galvez-e-chico-mendes, é também a intenção assumida e declarada do governo, com direito inclusive a notas lamurientas, penosas, nos meios de comunicação.

Inobstante esta assombrosa coincidência, em seu blog o próprio Moisés admite: "Meu movimento foi aproximar-me dos líderes [da greve] para falar-lhes com honestidade. Dizer-lhe que, quando um método não funciona, você o substitui. Acho que os líderes entenderam". Ou seja, Moisés chamou o movimento grevista para "conversar", propôs uma "substituição do método" - da greve - e no dia seguinte chamou a imprensa também para "conversar".

Mas neste segundo diálogo, diante de uma categoria desmobilizada e sem comando de greve, trabalhadores que ralam tanto quanto os da educação, Moisés mostrou toda honestidade a que tem direito. Que a imprensa está atrapalhando o diálogo. Que os repórteres devem se retratar e expor a verdade dos fatos.
Ora, como a imprensa teria agido de má-fé se duas propostas trazidas do diálogo - ou melhor, da "substituição de método" - foram expostas no mesmo dia aos servidores em greve?

A imprensa pode ter se equivocado ao sugerir que Diniz representava o governo na reunião?

A resposta é a mesma em relação à verdade numa sociedade de classes: depende do interesse em jogo, ou seja, depende de quem "olha". É uma questão filosófica clássica. A "verdade" existe para além dos fatos, como um fato puro a ser alcançado pela imparcialidade, ou é uma construção social e depende da classe social em que está o observador?
Se o motor da história ainda é a luta de classes, é evidente que Diniz representava o governo ao discutir com o Comando de Greve. Ainda que não falasse pelo governo ele está investido desse cargo - nomeado, batizado e referendado líder do governo.

Por outro lado, é igualmente evidente que as propostas surgidas nesse encontro foram apresentadas pelo governo? Difícil saber. Sabe-se apenas que a "posição política" de Moisés Diniz é precisamente a "posição política" do governo e que as duas propostas encaminhadas ontem foram também precisamente "substitutivos" para um movimento grevista que perdura há quase um mês.

A questão fundamental é então de uma simplicidade franciscana. As propostas surgidas na reunião com Diniz, independentemente da sua origem, tiveram o efeito desejado: reabrir o cobiçado "canal de negociação" com o governo - do qual Moisés Diniz é líder na Aleac - que deve receber e responder à categoria. A reunião na manhã de terça-feira foi fundamental para a continuidade de um diálogo que havia sido rompido - algo que o próprio governo deixou claro em nota para os jornais.

Esse episódio sinaliza um fenômeno importante: trabalhadores de qualquer setor - imprensa, educação etc - partilham características em comum.

A principal delas é pagar com o lombo quando interesses pessoais são contestados ou colocados em xeque. No Acre, não é de hoje que a imprensa vive sendo chamada para fazer "desmentidos" em meio a situações nebulosas como a descrita acima. Ninguém protesta, nem o sindicato da categoria.


Hoje, em assembléia geral, os trabalhadores em educação decidiram fazer vários aditivos às propostas apresentadas pelo Sinplac. É outro posicionamento. Se o que move a sociedade é o trabalho, e se esta sociedade é cindida em classes sociais, nada nem ninguém está acima dos trabalhadores, que devem ser soberanos e tomar suas decisões de forma igualmente soberana. No entanto, cada acreano que tem TV ou rádio tornou-se conhecedor da contradição entre o discurso oficialesco do governo sobre a educação pública e a realidade nua e crua evidenciada pelos professores e pessoal de apoio na greve, com todas as ameaças de responsabilização dos trabalhadores pelos "prejuízos à educação".

Quando o poder constituído, qualquer forma de poder constituído, se intromete nas lutas emancipatórias dos trabalhadores em busca de dividendos - eleitorais ou de qualquer tipo - o resultado é funesto. Trabalhadores são a base do tecido social, e não têm nada a perder senão os seus próprios grilhões. No caso da imprensa, deve-se perder os interesses particulares que omitem e manipulam o noticiário; na educação, a liberdade deve ter como inimigo o poder coercitivo do Estado e seus asseclas.

Contra essas infestações parasitárias na classe revolucionária, as categorias precisam responder com união. Somente os trabalhadores unidos podem subverter as cadeias que impedem a instauração do reino da liberdade, do trabalho desalienado e do fim de todos os joguetes de interesses espúrios.

Trabalhadores do Acre, uni-vos!



A charge é do cartunista Braga.

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