Pular para o conteúdo principal

TUDO ERRADO

Podem conferir: uma profusão de terminologias "democráticas" invade a sociedade acreana quando trabalhadores entram em greve. Especialmente se o setor paralisado localiza-se nas dependências do glorioso serviço público, que por meio de suas fartas e generosas tetas sustém o modus vivendi de alguns - sem que apareça, em algum recanto de jornal, o reclame dos impostos e tributos devidos à sociedade democrática de homens e mulheres de bem etc etc etc.

É evidente que trata-se de um equívoco. Tá todo mundo "canso" de saber: riqueza, no Acre, jamais foi derivativo de empreendimentos capitalistas. Riqueza sempre foi exclusividade do setor público. Vem, dentre outras fontes - do arco-da-velha -, do sucateamento de gráficas públicas, de lojas que pegam fogo "misteriosamente" (ou o zé foguinho as pega misteriosamente, sabe-se lá a ordem dos fatores), de reuniões que varam a madrugada nos finais de mandato, de alfandegamentos desalfandegados da Área de Livre Comércio de Brasiléia e Epitaciolândia, da "capação" de determinadas verbas...

Enfim... são muitos os varadouros que levam ao Barracão.

Pode algum cidadão de bem se preocupar, nesse contexto, com o impacto da greve dos professores sobre "os direitos da sociedade, os contribuintes"?

Óbvio que pode. Deve!

Desde, é claro, que leve em consideração a lógica: o Estado vive para a sociedade, não o contrário. Educação, saúde, transporte e outros "benefícios" concedidos pelo Estado não são mercadorias compradas por impostos e tributos. São direitos e como tais valem para todos. São obrigações do Estado, independentemente de quaisquer tributações. Sem eles o Estado sequer existiria, uma vez que não haveria também sentido para tal existência.

O Estado só existe na medida em que há determinadas tarefas e funções que indivíduos não conseguem realizar sozinhos - até conseguiriam se houvesse união desses indivíduos; mas, como tais indivíduos fazem parte de classes sociais e não abrem mão de tais, a intermediação entre eles requer o Estado como agente agregador.

Se fossem mercadorias, aí sim os direitos da sociedade dependeriam de retribuição financeira. Mas não dependem. A contribuição financeira que todos pagamos serve para o Estado tentar corrigir a gigantesca distorção social existente no país. É simples entender: uma democracia exige igualdade de direitos, mas a prática impõe a pobreza porque é da pobreza que se produz riqueza - e com ela a democracia para meia dúzia de bem-nascidos, aqui incluídos os parasitas do setor público.

A concepção de que os direitos de cidadania são mercadorias, obtidas a título de contraprestação financeira, diz muito sobre a mitologia política pessoal de quem a designa como tal. Trata-se de uma "janela" para qualquer leitor arguto interessado em compreender a mentalidade tacanha, reacionária, conservadora, oriunda de décadas de toma-lá-dá-cá entre representantes da burguesia estatal e burguesia privada.

Sob tais condições tudo vira mercadoria: se tudo é vendível e comprável no mercado, até dignidade pessoal, então os direitos consagrados na Constituição também são! Por que não seriam?

Como dizem os antigos: o costume do cachimbo é que entorta a boca.

Dinheiro de impostos e tributos serve para corrigir uma distorção na democracia criada precisamente pela existência de uma realidade antidemocrática: as classes sociais.

Logo, os tais "direitos dos contribuintes" - se é que não se resumem ao próprio ato de contribuir para a eliminação de uma realidade insana - devem ser cobrados do Estado, não dos grevistas. É o Estado que deve, por meio da organização orçamentária, conceder os direitos a quem realmente de direito: os trabalhadores, aqueles que criam as riquezas.

Ou então que exijam o fim da luta de classes...




PS - Há cerca de um mês sou assessor de imprensa do Sindicato dos Professores Licenciados do Acre (Sinplac), que conduz a atual greve dos trabalhadores em educação. É só pra constar. Quero deixar isso público antes que me acusem de escrever algo sociologicamente correto só para "defender o meu", como é comum por aqui - como se o meu blog pudesse ter algum efeito sobre o movimento grevista...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

SINJAC DENUNCIA TV GAZETA

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Acre (Sinjac) registrou manhã de hoje (27) uma denúncia no Ministério do Trabalho contra a TV Gazeta por descumprimento de acordo coletivo firmado há quatro anos. O acordo referente ao auxílio universitário, no qual todas as emissoras de televisão e jornais impressos devem garantir o auxílio universitário de 50% do valor da mensalidade do curso de Jornalismo, deixou de ser cumprido pela TV Gazeta desde julho deste ano. Segundo a cláusula 32ª do acordo, o descumprimento de qualquer das cláusulas constante na convenção coletiva implicará em multa de 17 salários mínimos. Com base na documentação, o sindicato busca por meios legais defender os direitos de todos os jornalistas que sejam contratados das empresas que participaram da assinatura do pacto. Fonte: Sinjac ------------ Todos os anos, em abril e maio, a diretoria do Sinjac inicia uma série de reuniões com os donos das e...

CORTADOR DE CANA APRESENTA SINTOMAS DE EXAUSTÃO E OUTRAS DOENÇAS

Por dia, trabalhador flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento para cortar outras 3.792, em pé ou curvado. Ministério Público do Trabalho de Campinas suspeita de morte causada pelo trabalho no canavial. Estudo brasileiro apresentado durante o 30º Congresso Mundial de Medicina do Esporte observou que um cortador de cana, ao longo das 8h de sua jornada de trabalho, flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento de corte da cana outras 3.792. Além disso, na maior parte do tempo, o trabalhador permanece em pé (45%) ou curvado (43%). “Observou-se que o cortador de cana de açúcar apresenta sintomas de exaustão e outras enfermidades causadas pela dificuldade de execução do seu trabalho”, destaca o pôster da pesquisa conduzida por Erivelton Fontana de Laat, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Paraná), e Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, da Universidade Metodista de Piracicaba (São Paulo). De acordo com o texto, desde 2004, o Ministério Público do Trabalho da ci...