Pular para o conteúdo principal

OS PAIS DA CRIANÇA

Editado em 23.05.2010, acatando sugestões - geniais - da minha querida orientadora, professora e amiga, Eurenice de Oliveira. Pensei em fazer um novo texto, mas vou deixar os vários adendos geniais destacados em vermelho.
Nos Estados Unidos, uma arraigada tradição política de culto à personalidade cunhou a expressão "pais fundadores" para designar a bravura, audácia, perspicácia e capacidade de liderança dos primeiros presidentes daquele país. Trata-se de algo com repercussões diversas na vida política, responsável inclusive pela personalização do poder político - como se a democracia não fosse um processo coletivo.
No Acre, esta experiência geopolítica conduzida em grande parte de sua história pelo capital internacional, vamos na mesma direção.
Bastou por exemplo terminar a greve dos professores para pipocarem, aqui e ali, vários candidatos ao elevado cargo de "pai da criança" (entendida como tal o acordo entre governo e grevistas que encerrou o movimento de 29 dias).
Assim é que no dia seguinte ao fim da greve - dia 15 - o deputado estadual Moisés Diniz correu à imprensa para ponderar, com toda a gravidade, nos seguintes termos: "Os operadores do governo estavam tendo muitas dificuldades de conduzir o encerramento da greve. Os líderes sindicais estavam perdidos, inclusive, alguns brigando entre si e sem controle junto à base. Resolvi fazer uma ação atípica que foi me despir do papel de líder do Governo e ir dialogar com as lideranças dos trabalhadores que não se entendiam". Ou seja: quando tudo parecia perdido, quando não restava mais qualquer esperança, eis que de repente ele - El Gran Rojo! - surge e salva a lavoura.
(“Salva a lavoura” prestando um servicinho de desqualificar as lideranças que conduziram a mobilização “indicando” sua desorganização, seus conflitos e sua falta de representatividade. Técnica totalmente conhecida e esperada.)
A Secretaria de Estado de Educação (SEE) também fez circular, no mesmo dia 15, uma nota nos meios de comunicação acusando o movimento de ter apresentado uma espécie de clarão de bom-senso nos últimos minutos do segundo tempo, caindo nas graças do governo por ter suspendido a greve para obter o acordo. A mesma nota, que pode ser lida na íntegra no site da SEE, aponta o papel fundamental de núcleos municipais do Sinteac "na construção da proposta de suspensão do movimento" - o que soa algo estranho, uma vez que a suspensão ou continuidade da greve depende de votação geral da categoria, não do protagonismo deste ou daquele grupo.
Por fim o próprio Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Acre (Sinteac), por meio de Manoel Lima, seu presidente, surgiu como um terceiro pai. Lima, após dizer que a imprensa estava atrapalhando o diálogo com o governo, afirmou em entrevista que a proposta de reajuste teria partido dos grevistas. Não partiu. A proposta original, votada pela categoria um dia antes, tinha quatro itens. O governo só admitiu um, criando assim uma outra proposta e levando os grevistas, já exauridos pelos 29 dias de manifestações, a pensar que a mudança fora provocada "no processo de diálogo".
(Ao governo interessa a gestão democrática das mobilizações sociais, o que inclui o paternalismo de afirmar que somente o governo sabe o que é melhor para os grevistas, muito mais que a sua liderança. Continua a desqualificação da direção do movimento...Por outro lado, afirmar que só concedeu uma reivindicação fica antipático politicamente. O diálogo e o consenso são politicamente corretos).
Pois não foi. A proposta dos servidores foi alterada pelo governo, aceita pela categoria e daí sim carimbada pelo governo. Se isso ocorreu antes ou após a suspensão da greve - votada por volta das 11 horas do dia 14 - é algo de um profundo e cósmico mistério...
Vou abstrair propositalmente todas as falhas que podem e devem ser esperadas de mobilizações sociais desse tipo - especialmente em ano eleitoral - para lançar reflexão sobre a manifestação de uma velha prática herdada dos antigos seringais: a tentativa de tutelamento da sociedade. Em uma publicação pouco conhecida, o cientista político Marcos Inácio Fernandes revela que os primeiros seringalistas acreanos utilizavam os jornais de Manaus e Belém para criticar acidamente a política da recém-nascida República do Brasil em relação ao Acre. Queriam autonomia, mas só a defendiam porque tinham interesse em estabelecer a sua própria política tarifária sobre a borracha.
Nos anos de chumbo, quando a rede Diários Associados, de Assis Chateaubriand, criou o primeiro jornal diário no Acre - O Rio Branco, existente até hoje -, as páginas foram logo utilizadas pelos empresários locais como meio de lobby em relação aos nazifascistas tupiniquins. Construtoras famosas ergueram verdadeiros impérios às custas de obras faraônicas implantadas na Amazônia graças à constante e implacável pressão dessa imprensa "imparcial".
Hoje, quando o velho ciclo da borracha é somente uma lembrança e a Ditadura Militar ainda é chamada de "revolução" em alguns jornais, uma característica desses dois períodos permanece: a tentativa insidiosa de controlar, mapear, zonear e frear o ímpeto das necessidades materiais dos trabalhadores em luta. Isso ocorre numa dupla direção: estabelecendo agentes do Estado como heróis mediadores de imensa capacidade de liderança e também criminalizando ou relativizando a importância de mobilizações trabalhistas, reivindicatórias e potencialmente transformadoras.
Na esquerda, esse processo é auxiliado por uma leitura enviesada de Antonio Gramsci, o intelectual da sociedade civil. No submundo do cárcere, num momento em que militantes de esquerda eram perseguidos, torturados e punidos pelo fascismo italiano, Gramsci elaborou várias estratégias de conquista do poder político por parte dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos. Em outras palavras, Gramsci pretendia que o protagonismo político fosse feito pelos próprios trabalhadores, que deveriam criar seus partidos - logo, partidos de trabalhadores ou trabalhistas - e lutar dentro das regras da democracia representativa para desfascistizar a sociedade, tornando-a realmente democrática.
(Não aguentei e mexi no parag. Não mexi na idéia!)
Na esquerda, esse processo é auxiliado por uma leitura enviesada de Antonio Gramsci, o intelectual da sociedade civil. Este autor elaborou várias estratégias de conquista do poder político por parte dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos. No momento em que militantes de esquerda eram perseguidos, torturados e punidos pelo fascismo italiano, Gramsci analisava o protagonismo político dos próprios trabalhadores, que deveriam criar seus partidos - logo, partidos de trabalhadores ou trabalhistas - e lutar dentro das regras da democracia representativa cujo fortalecimento poderia se contrapor ao fascismo na sociedade, tornando-a realmente democrática.
Da leitura de Gramsci surgiram várias correntes partidárias que abandonaram a idéia de revolução, ou tendem a ver como uma revolução essa luta institucional dos trabalhadores e seus partidos representativos.
O problema - e aí vem o equívoco de várias esquerdas, dentre outras - é que o próprio Gramsci desenvolveu sua extraordinária teoria tendo como base a crítica da economia política. Na teoria gramsciana a luta institucional é uma luta "contra hegemônica" precisamente porque os espaços de sociabilidade política são representações da luta de classes, não de uma democracia em sentido estrito. Numa democracia o povo não manda, ao contrário do que diz o dicionário. O poder do trabalhador é reduzido ao ato do voto, a uma transferência de poder. Essa transferência de poder é o pressuposto básico da luta de classes: uma sociedade de dominadores e dominados.
(Aqui talvez coubesse dizer as filiações partidárias “desses meninos” para qualificar o “não entendem ou não leram” e a penúria intelectual ou o afastamento do ideário de esquerda dessas lideranças mencionadas. Presumo que para elas, seja um elogio dizer que não são de esquerda. São evangélicas?)
Este é o ponto que Moisés Diniz, Manoel Lima e o próprio governo do Estado do Acre não entendem ou não leram. Luta institucional dos trabalhadores requer primeiro trabalhadores organizados, não a criminalização dos movimentos dos trabalhadores. Requer a crítica da economia política, não o estabelecimento do Estado como agente produtor da paz e glória eterna para sempre amém... numa sociedade capitalista, Estado é um Estado de classe mesmo que em sua condução esteja um partido trabalhista nos moldes atuais.
(Substituir luta institucional por “luta social dos trabalhadores” . Aqui, talvez o mais interessante fosse indicar a prática política do governador diante de mobilizações sociais. Como ele agiu diante das várias manifestações. Por outro lado, esses caras lendo a Crítica...sei não! É bom para você mencionar esses textos. Indica sua proximidade com o pensamento socialista fundante. Por outro lado, para eles, que importância tem isto? E para o leitor?)
Há aqui um desvio notável entre teoria e prática política - em benefício, evidentemente, da prática desprovida de teoria. O governo que se propõe ser o dos trabalhadores é o governo que se coloca como o grande pai de todos os trabalhadores e burgueses, aquele que os conduz, que os pacifica, "com todos e para todos". É obviamente um processo de tutelamento e submissão da classe trabalhadora a um processo político-partidário, mas é também o resultado histórico e inevitável de uma herança política nazifascista.
(Não concordo que haja desvio. O PT há muito deixou de ser um partido de esquerda. Antes, até de ganhar as eleições presidenciais. O Estado burguês resolve crises criminalizando, tutelando e jogando a polícia sobre as lideranças, ao mesmo tempo em que apela para medidas jurídicas que penalizam o exercício da liberdade de organização e manifestação pública. Simultaneamente joga uma parte da sociedade contra a outra parte e assume a responsabilidade pelo bem-estar geral da sociedade. Isto é feito, também, através da tecnologia da comunicação organizada na imprensa falada e escrita. Os empresários (da comunicação?) sempre participam da greve como generais de todas as guerras, a lutar nas guerras de movimento e posição para reposicionar os grupos no poder. Penso que o governo seguiu a cartilha em todos os pontos.) Mas será que o sindicato seguiu? Já houve avaliação sobre os alcances e os limites dessa greve? E as principais forças desse sindicato, como atuaram? Essa mobilização permitiu o crescimento da solidariedade entre este segmento de trabalhadores? Quais as formas de solidariedades manifestadas pelos outros trabalhadores organizados? Quem vai fazer o registro dessa mobilização? Esta é uma sugestão de pauta sintética para os intelectuais orgânicos dos trabalhadores em educação. Quem se habilita?
Gramsci para nós faria todo o sentido, se não fosse a tentativa insidiosa de colocar a política acima dos interesses históricos das classes trabalhadoras. Acima da própria luta de classes! Quem se beneficia disso, a não ser as classes dominantes, incrustadas no próprio aparelho estatal?
Tal qual os seringalistas do primeiro ciclo da borracha e os nazistas do Regime Militar, vivemos um momento que não foge do velho processo que sempre marcou a trajetória política acreana: estabelecer interesses particulares como se fossem os de uma classe.
Há, na Sociologia, um nome e uma classificação para um processo político que atua nos mesmos moldes. A ênfase no controle da sociedade, na única dinâmica que pode criar o possível, é a sua ambição fundamental. Outras são a mitologização da história e a febre do desenvolvimentismo tecnológico.
Dicas?
(A burguesia estabelece seus interesses particulares como se fossem os interesses da sociedade. Os interesses da sociedade estão acima dos interesses das classes e da política: “os alunos não podem perder o ano letivo, os pais estão contra a greve e pressionam o governo, é ano de política não podemos dar o aumento que pedem”, etc, etc, etc É eficiente em produzir a aparência de que o universal prevalece sobre o particular. Por isso está no poder até hoje).
Seu texto esta bom. Eu não conseguiria fazer nada igual. Sempre que a gente escreve um texto, quem lê encontra brechas para fazer várias observações. É bom para o debate. Desculpe se peguei pesado. Você pediu. Você teve.

Uma das suas orientadoras mais queridas. Lembra?

Eurenice de Oliveira

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

CORTADOR DE CANA APRESENTA SINTOMAS DE EXAUSTÃO E OUTRAS DOENÇAS

Por dia, trabalhador flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento para cortar outras 3.792, em pé ou curvado. Ministério Público do Trabalho de Campinas suspeita de morte causada pelo trabalho no canavial. Estudo brasileiro apresentado durante o 30º Congresso Mundial de Medicina do Esporte observou que um cortador de cana, ao longo das 8h de sua jornada de trabalho, flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento de corte da cana outras 3.792. Além disso, na maior parte do tempo, o trabalhador permanece em pé (45%) ou curvado (43%). “Observou-se que o cortador de cana de açúcar apresenta sintomas de exaustão e outras enfermidades causadas pela dificuldade de execução do seu trabalho”, destaca o pôster da pesquisa conduzida por Erivelton Fontana de Laat, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Paraná), e Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, da Universidade Metodista de Piracicaba (São Paulo). De acordo com o texto, desde 2004, o Ministério Público do Trabalho da ci...

A CONSCIÊNCIA E O OLHAR

Indagado por uma pesquisadora sobre o que gostaria de ver na televisão, um jovem engraxate da favela da Rocinha (Rio) responde: "eu". Isto é logo interpretado como uma reivindicação de espaço por parte de "meninos, como ele, na faixa dos 10 aos 18 anos, para os quais não existe nada em termos de teatro, lazer e cinema". A interpretação encaminha claramente a resposta do entrevistado na direção dos interesses de programação da instituição televisiva a que se vincula a pesquisadora. Seria a manifestação do desejo de um telespectador insatisfeito com a oferta habitual de conteúdos da televisão. O atendimento à demanda ratificaria as linhas gerais do juízo de função psicossocial que a organização televisiva costuma fazer sobre si mesma. Entretanto, para melhor entender a natureza do fenômeno da televisão, começaremos tomando ao pé da letra a resposta do pequeno engraxate: ele desejaria ver a si mesmo enquanto indivíduo concreto - não como índice de uma abstrata méd...