Pular para o conteúdo principal

A DEFESA DA VIDA



Há uma série de equívocos no argumento que se diz em "defesa da vida" quando o assunto é descriminalização do aborto no Brasil.

A interrupção da gravidez é um direito da mulher em 90% dos países europeus (incluindo a Rússia), nos Estados Unidos, no Canadá e nas regiões mais desenvolvidas da Ásia, como é possível conferir nas áreas em azul do mapa acima (clique nele para ampliar).

O equívoco não está relacionado, ainda com a ignorância sobre as 12 internações por hora no SUS, relacionadas a consequencias de abortos clandestinos (marca que ultrapassa a do câncer de mama), como averiguou reportagem publicada ontem no IG.

O maior erro desse argumento é, novamente, de ordem lógica: a defesa da vida não pode ser invocada contra o direito à interrupção da gravidez. Só a ejaculação masculina, necessária à própria gravidez, elimina de 200 a 600 milhões de espermatozóides, organismos unicelulares... e vivos!

São vivos, ainda: bananas, alfaces, carnes, feijão, arroz... em suma, toda e qualquer espécie dos reinos Vegetal ou Animal passível de entrar na onívora dieta do Homo sapiens. Seres que nascem, crescem, reproduzem-se e morrem até mais intensamente que nós viram nutrientes, todos os dias, em milhões de pratos humanos.

Mas suponhamos que não se trate de "defesa da vida", de forma genérica, e tão somente de "defesa da vida humana".

Nesse caso o equívoco é ainda maior!

O contexto da defesa da "vida humana" diferencia qualitativamente, por exemplo, um óvulo fecundado - o "zigoto" - de outro não-fecundado. Qual a origem dessa diferenciação? Sabe-se que o cristianismo há muito estabeleceu para os seus fiéis que o instante da união da alma ao corpo começa no ato da fecundação.

Mas esta doutrina não deveria ser religiosa, circunscrita a um grupo social?

Por que um óvulo não-fecundado seria "menos vivo" que um fecundado?

A propósito, até o terceiro dia de existência o zigoto é na verdade um conjunto de células indiferenciadas com enorme potencial para mutações chamado blastocisto, formado por células-tronco, alvo de polêmica recente no Supremo Tribunal Federal (STF) que, por sinal, acabou por decidir a favor da ciência.

A questão fundamental que orientou a decisão do STF sobre as células-tronco foi justamente esta: o que define um ser humano? Se a vida é preexistente ao zigoto, já existindo no óvulo e no espermatozóide, qual é a origem do argumento que define a humanidade no instante da fecundação?

A fecundação ao zigoto dá direito automático à integração no gênero humano?

Ou ser humano exigiria mais que isso?

Seria necessário que os "defensores da vida humana" apresentassem um único argumento que validasse a superioridade da vida humana em relação às demais. Em relação a um óvulo não-fecundado, por exemplo. Ou a um espermatozóide.

Mas os argumentos não existem, já que se trata de mais uma questão em que um artigo de fé esparramou-se como cultura no tecido social e tornou-se senso comum.

O leitor mais atento pode discordar, apresentando os indicadores mais empíricos do aparente destaque do Homo sapiens em comparação com os demais seres vivos: nossa música, nossa arte, nossa literatura, enfim, nossa cultura. Afinal nenhum animal aprendeu, como nós, a manejar a natureza e instrumentalizá-la em favor das nossas necessidades de sobrevivência.

Pois eis aí a chave da questão.

Ser humano é aquele que ser que se produz historicamente, ou seja, na medida em que se insere socialmente, assimilando ou subjetivando o gigantesco aparato histórico que a nossa civilização construiu? Ou um zigoto fecundado?

O meu argumento é o mesmo do STF: embriões, ou melhor, blastocistos, não são capazes de inserir-se socialmente, assim como blastocistos de mosca não podem voar ou os de onça não podem caçar. Na nossa espécie este princípio é ainda mais poderoso: somos essencialmente seres culturais, que não se produzem pela unicamente pela natureza. Nossa produção é cultural. Na medida em que nos socializamos, nos tornamos mais humanos por meio do compartilhamento de valores sociais. Isto é humanizar-se.

Ser humano não significa apenas ter cromossomos ou DNA humano, pertencer a espécie humana. Se assim o fosse teríamos que rever nossas posições quanto a possibilidade de congelamento de tecidos, ou de manter células em estado de hibernação; afinal, todos têm cromossomos e DNA humanos. Todos pertencem à espécie humana. Pertencer à nossa espécie não é a única condição necessária para que alguém seja realmente dotado de humanidade.

Ser humano vai muito além de características biológicas. Aliás, derivar princípios morais ou definir direitos a partir de características biológicas sempre conduziu a distorções inaceitáveis na história da organização política da humanidade. O nazismo, o racismo, o sexismo, a homofobia são os maiores exemplos.

Este conceito é um passo para a opressão política. Assim como é possível usar o momento da fecundação do óvulo ou o nascimento para determinar quem tem ou não "vida humana", outros podem empregar a cor da pele (ou dos cabelos), o tamanho das orelhas ou a habilidade de tocar um instrumento musical para conceder ou negar direitos individuais. É por isso que a concessão de direitos, na política, deve assentar-se sobre bases democráticas em vez de crenças.

Constituir a política de forma religiosa é o pressuposto do fascismo. É usar a "defesa da vida", como é o caso do aborto, para obter poder arbitrário e antidemocrático sobre o tecido social. É colaborar para implodir a democracia sob pretexto de preservar os "altos ideais", como ocorreu no Golpe de 64.

Comentários

Unknown disse…
Caro Josafá,
.
Parabéns pelo blog. É necessário livrar essa discussão particular do ruído dos dogmas e você o faz bem. Tenho sido também muito crítico com esse processo de instrumentalizar a ciência experimental a favor do conservadorismo cristão, que cria monstros como o argumento do DNA e o da física quântica (sim, eu vi seu tópico na História).
.
Um abraço.

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

SOBRE O JORNALISMO ACREANO

Não estou entre os que culpam os jornalistas acreanos pelo tom monocórdico das notícias que circulam na nossa imprensa seringueira. Trabalhei demais nas redações de Rio Branco para saber que esse ponto de vista é só mais uma manifestação do velho preconceito de classe social. Preconceito cuja ambição histórica sempre foi culpar os trabalhadores pelos conchavos dos patrões. É evidente que o jornalismo praticado no Acre poderia melhorar, e muito, mas esta melhoria passaria necessariamente pelo aprofundamento da cobertura sobre a realidade do povo acreano: suas lutas, histórias, aventuras e sonhos. Pela vida coletiva como construção diária. Acontece que - e a chamada "classe dirigente" do Acre sabe disso - toda uma epopéia de esforço humano contra o abandono e a manipulação política viriam à tona. Antigos mitos seriam desconstruídos. Vários discursos, desacreditados. Diversas promessas, desmentidas. Esse jornalismo não seria agradável para os que sempre dependeram do dinheiro pú...

H.G. WELLS ENTREVISTA JOSEPH STALIN

Tradução livre do original em inglês , publicado em 23 de Julho de 1934. O autor de "Guerra dos Mundos", "A Máquina do Tempo", "A Ilha do Dr. Moreau" e outros clássicos da literatura moderna discute com o dirigente soviético sobre constitucionalismo e revolução socialista, economia planificada, ditadura do coletivo sobre o indivíduo, violência estatal, estratificação social e outras questões. Wells: Fico-lhe muito grato, senhor Stálin, por ter aceitado ver-me. Estive recentemente nos Estados Unidos. Mantive longa conversa com o Presidente Roosevelt e procurei saber quais eram suas idéias principais. Agora venho perguntar ao senhor o que está fazendo para mudar o mundo... Stálin: Na verdade, não muita coisa... Wells: Vagueio pelo mundo e como um homem comum, observo o que se passa em volta de mim. Stálin: Os homens públicos importantes, como o senhor, não são "homens comuns". Evidentemente, só a história pode determinar quã...