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O que querem os evangélicos?

Galera, desculpem a ausência prolongada. É mestrado, projeto de doutorado e uma porrada de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mas... como diria Mumm-rá (acho que é assim que escreve), EU VOLTAREI... mhuamhuamhua... Ando preparando umas mudanças pro blog, nada muito grave, só algumas alterações de layout e melhoria de conteúdo também.

Por enquanto, deixo para vocês um tostão da minha voz um artigo que publiquei no AC24 Horas, aqui de Rio Branco. Quem quiser entender melhor o caso é só clicar aqui.

Bjos na boca e até breve!

PS - Quem quiser entender melhor do que trata o texto é só clicar aqui.

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O que querem os evangélicos?
Jozafá Batista
Numa das mais belas e esquecidas cenas de “Gladiador” (Ridley Scott, 2000), um velho imperador Marco Aurélio, preocupado com o seu legado, testa o general Maximus: “O que é Roma?”. O experiente militar, veterano de muitas batalhas, não titubeia: “Vi muito deste mundo. É brutal, cruel e obscuro. Roma é a luz”.
Não é uma frase absurda. Em 180 d.C., data em que o filme é ambientado, o Império Romano passava por uma franca expansão que o transformaria numa das maiores empreitadas coloniais da história. Em 391 d.C. um novo ingrediente ajudaria a fixar esse ideal geopolítico: o cristianismo, declarado religião oficial do Império. O lema “um Deus, um imperador” já fazia parte das campanhas militares romanas desde Constantino (272-337 d.C.).
Ao longo dos séculos a Europa assistiria ao crescimento de uma expressão religiosa que não só se colocava como “a luz” de Maximus, ou seja, como a única verdadeira diante de todas as outras, como também alicerçava a autoridade do poder político que a favorecia. Ingleses, franceses, holandeses, espanhóis, portugueses: não foram poucas coroas, ao longo de mais de um milênio e meio, que obtiveram as bênçãos apostólicas para – não necessariamente nessa ordem – catequizar, pilhar, escravizar e assassinar os mais diversos povos, especialmente aqueles que relutavam a aceitar o Evangelho da Salvação e suas Escrituras.
Nascido na fase de reunificação do Império Romano, o cristianismo herdou dele a sua noção de universalidade. A ideia de ser portador da única verdade, da revelação final de Deus para a espécie humana – da “luz” – em detrimento de outras religiões fez com que o cristianismo atravessasse séculos de história com o apoio da política e de exércitos bem armados.
Isso explica a comoção geral em torno do recente episódio da queima da bíblia na Universidade Federal do Acre (Ufac). Embora o livro não tenha sido retirado de alguma igreja, alega-se que houve “intolerância religiosa”. Ora, pela mesma lógica, hindus que consideram vacas animais sagrados poderiam acusar todo o ocidente de cometer o mesmo crime! E que dizer das tribos indígenas que consideram sagrados o ar, o solo, as árvores? Não poderiam acusar de intolerância religiosa os que poluem os recursos naturais?
Numa curiosa matéria publicada em um site local um pastor chegou a justificar, a sério, que “a Bíblia não é um livro, a Bíblia é uma revelação. É a Bíblia é o primeiro livro de Direito do mundo. O primeiro livro de garantia de Direitos.” O Homo sapiens tem aproximadamente 50 mil anos. O cristianismo tem 2 mil e o judaísmo no máximo 3 mil. O pastor não sabe, mas a humanidade não passou 47 mil anos sem qualquer tipo de ordem jurídica.

Nem sem religiões: como é possível explicar que uma religião específica, de determinado local e data, seja a única portadora da verdade se milhares de civilizações, próximas ou distantes, já passaram muito antes de seu surgimento pelo planeta (algumas delas varridas do mapa porque foram consideradas pagãs) com suas respectivas religiões e deuses?

Não se explica, a não ser pela força política desta “verdade universal” impregnada no cristianismo. O Império Romano dela lançou mão para forjar a Europa e a Europa para produzir o continente americano. Pouco a pouco, países e povos foram anexados a vastos impérios em nome de uma suposta verdade ao mesmo tempo política e religiosa. “Um só deus, um só imperador”. Uma só política, uma só igreja. Um só povo, uma só fé.
Logo, expressões críticas ao cristianismo só podem ser vistas como intolerantes por quem já tem o cristianismo como uma verdade universal, como “a luz”. Queimar uma bíblia soa como queimar a própria verdade, queimar a palavra de Deus etc, mas não é assim porque nem todos pensam da mesma maneira. Algumas pessoas entendem a bíblia como um mecanismo de uniformização social, uma ferramenta política para disciplinar a sociedade.
O que querem os evangélicos? Um país para o Senhor Jesus, certo? Pois bem, isso já aconteceu algumas vezes ao longo da história. A diferença é que hoje ninguém é obrigado a considerar também sagrado o que outras pessoas consideram, mesmo a pretexto da “luz”. Pensar assim é ser intolerante, ou, para ser mais exato, usar o argumento da intolerância de forma invertida, para acusar o outro daquilo que o próprio acusador pratica.
A repercussão beata de episódios como o da Ufac mostra o quanto a nossa “democracia” é frágil e o quanto a religião é útil para subverter o seu princípio mais básico: nenhuma expressão social tem o direito de se colocar em um pedestal de verdade absoluta a ponto de exigir submissão de todas as demais. Esse tempo já passou, e, diga-se de passagem, já foi tarde. Nós é que estamos demorando demais a nos acostumar com isso.

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