Pular para o conteúdo principal

A DEMOCRACIA COMO MITO



Atenção, homens de bem: democracia (gr. demo = povo, kratos = poder) significa, literalmente, "poder do povo".

Sabei que democracia e sistema de representação política são fenômenos distintos. A representatividade política foi criada para conjugar interesses ou classes sociais divergentes (leia-se: pobres e ricos, trabalhadores e proprietários) em seus interesses. Foi por isso que surgiram os partidos políticos, a alternância de poder, as instituições etc.

Em consequência direta disso, lutar por democracia só pode significar defender o exercício do poder pelo povo, a participação nas decisões públicas e na operacionalização da política por todo o tecido social. Fora disso, é tentar reduzir a "democracia" a meia dúzia de ritos, mesuras e rapapés entre engravatados.

Em termos nordestinos: "a opinião pública somos nós", isto é, o povo.

Outro recado: liberdade de imprensa e liberdade de expressão também são coisas distintas. Imprensa é um setor econômico organizado, muito bem estruturado para utilizar o seu "poder de informar imparcialmente" para fazer lobby de verbas públicas.

Vede o caso acreano. Quando um dono de jornal qualquer se ressente da "falta de repasse" é que começa então a ladainha sobre a "falta de liberdade de imprensa". Quando volta a "liberdade", ou seja, quando o governo começa a enviar seus lacaios às redações e exigir que os jornais adequem suas linhas editoriais em troca de grana, os jornalistas gastam seu tempo precioso em matérias sobre solenidades estatais, entrevistas a políticos, inaugurações de obras públicas etc.

Ou seja, como a imprensa acreana (TVs e rádios incluídos) não consegue sobreviver sem a famosa "verba de mídia" enviada mensalmente pelo governo do Estado, institucionaliza-se a prostituição da notícia e consequentemente da opinião pública. Suspenso o repasse inicia-se então o jornalismo de lobby, geralmente ancorado no "potencial antidemocrático" desse "governo que aí está".

O fato disso não ter ocorrido no Acre nos últimos anos significa unicamente que, nas gestões estaduais do PT, os repasses vêm sendo feitos religiosamente em dia.

É isto a liberdade de expressão do povo?

Como poderia?

A questão é que "liberdade de imprensa", no Acre ou no Brasil, funciona nos mesmos moldes que a "democracia representativa". Representadas (por veículos de opinião pública ou por políticos), as pessoas não participam mais das decisões do poder político e mais: ajudam a concentrá-lo em indivíduos, tal qual ocorria nas antigas monarquias que o sistema atual se propôs a substituir.

Instituições, partidos políticos, imprensa privada, o próprio Estado, existem como supostos de uma hierarquização social necessária para exercer o governo, o poder, mas não são pressupostos da democracia.

O único pressuposto da democracia é o povo e este exercendo o poder. Fora isso, é lobby político. Quase sempre com finalidades golpistas.


Na foto: fachada do jornal A Tribuna, onde funciona também a maioria dos órgãos da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A XENOFOBIA NOSSA DE CADA DIA

Deixem-me entender. Em 11 de setembro passado houve uma tentativa de golpe civil na Bolívia, perpetrada pelos dirigentes de vários departamentos - equivalentes aos "estados" no Brasil - opositores ao presidente Evo Morales. Em Pando, departamento fronteiriço com o Brasil pelo Acre, cerca de 18 pessoas foram assassinadas e o número de desaparecidos ainda hoje é incerto. Por isso ainda em setembro a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) enviou ao local uma comissão de investigação composta por advogados, antropólogos, peritos criminais, jornalistas e outros profissionais de várias áreas e de vários países. A comissão visitou Cobija, Brasiléia e Epitaciolândia, conversou com os refugiados, com as famílias das vítimas e sobreviventes, visitou os locais de confronto, coletou provas materiais e depoimentos. Conclusão: houve mesmo uma tentativa de golpe (clique aqui para baixar o relatório final da Unasul). Estupros, torturas, assassinatos a sangue frio, racismo, houve de tudo um...

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

AINDA SOBRE CRISTIANISMO E PAZ SOCIAL

A propósito da postagem " Por que o Cristianismo não produz paz social " recebi o seguinte comentário do leitor Marcelino Freixo: Me permita fazer uma correção. Pelo Evangelho, a salvação do homem é um ato de graça, e não o resultado do amor ao próximo ou mesmo a Deus. O amor a Deus e ao próximo é o resultado de ter a certeza dessa salvação, conforme está escrito em Efésios 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie". Acho que isso invalida o argumento central do seu texto, que o cristianismo ensina que o amor é condição para se ter algo.