Pular para o conteúdo principal

INDIVÍDUO OU COLETIVIDADE?

Uma das grandes questões da Sociologia é saber quem veio primeiro, a galinha ou o ovo: o indivíduo ou a sociedade?

Para pensadores positivistas como Comte e Durkheim, dentre outros, a primazia é claramente da sociedade. São relativamente conhecidas as concepções de ambos de que a soiedade seria um "organismo" e que desajustes sociais deveriam ser buscados e corrigidos nos indivíduos pouco afetos a um ordenamento, uma organização sistêmica.

Teóricos da economia como David Ricardo e Adam Smith esforçaram-se para desenvolver seus estudos nesta direção. Acabaram descobrindo que não há como dissociar uma coisa da outra, muito menos definir onde uma começa e a outra termina: estamos todos, segundo Smith, envolvidos em sociedade e se a liberdade individual é uma necessidade que se impõe para o bem-estar, a própria sociedade deve organizar uma nova ordem social que tenha na liberdade o seu pressuposto.

Smith vai além. Depois de compreender, no seu "Riqueza das Nações", que os indivíduos nascem em contexto históricos específicos, inserindo-se nos sistemas de valores e conflitos existentes em sua época, conclama as classes para encontrar, por meio do diálogo, as condições de organização ou trabalho ideais. O objetivo de Smith com esse arranjo é que a sociedade produza riquezas, cresça e se desenvolva.

A tradição marxista segue a mesma linha. Para Marx, o indivíduo não é uma mônada, um ser cujos interesses pessoais surgem ex nihilo. Se indivíduos não existem fora do contexto social a ponto de não conseguirem ativar o processo de produção de riquezas sem mobilizar trabalho alheio, então a idéia de que o indivíduo é "livre para realizar seus interesses" é não somente ilusória, mas apologética - ou seja, serve para ocultar os interesses de uma classe no processo de apropriação do trabalho alheio visando enriquecimento privado.

É evidente que isso não anula a ocorrência dos interesses individuais. É possível a qualquer indivíduo mobilizar seus esforços para amealhar a quantidade de riquezas que bem lhe apetecer. O que não é possível é fazê-lo por fora do processo geral de acumulação de riquezas, ou seja, por fora do mundo do trabalho, da mobilização das pessoas que buscam satisfazer necessidades físicas, intelectuais e sociais.

Isso ocorre porque para acumular riquezas é necessário mobilizar trabalho vivo. O trabalho humano, organizado, disciplinado, é o único fenômeno capaz de gerar riqueza porque ao transformar a natureza o faz para atender necessidades dos seres humanos: calçados, alimentação, informática, automobilismo etc. A capacidade de alguém enriquecer está diretamente ligada à sua perspicácia para convencer outras pessoas de que o trabalho delas, organizado numa empresa, pode ser trocado por salários mediante uma determinada jornada diária de trabalho.

Acossadas pela própria necessidade de sobrevivência, essas pessoas aceitam tais termos e passam a trabalhar em troca de uma quantia suficiente para atendê-la.

Vem daí o verdadeiro caráter apologético, ideológico, da expressão "indivíduo livre": nem mesmo o indivíduo que pretende enriquecer é livre, já que não pode fazê-lo sem mobilizar, sugar e a rede social de produção de mercadorias. Os demais, que trabalham em troca de salários, não podem ser livres porque ganham o suficiente para reproduzir, a cada dia, a sanidade física e mental necessária para criar mercadorias novas.

A liberdade individual na nossa ordem é, por isso, um mito.

Não podem existir indivíduos livres se a sociedade não for livre.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

O VERDE É CONSERVADOR?

Marina Silva se tornou uma política conservadora, que facilmente pode ser incorporada no discurso religioso de salvacionismo do planeta, com o qual ela está afinada. As suas idéias encontram uma pirâmide consistente de valores: Deus, Ambiente e Sociedade. Ela é a primeira do novo cristianismo brasileiro a parecer viver pela idéia que considera verdadeira. Com capacidade, inclusive, de conquistar os conservadores brasileiros - aqueles que não possuem um projeto de poder deliberado, mas que aceitam a vida tal como ela é. O projeto ambiental no Brasil é um projeto por acontecer. E não virá do PV, que deve ser implodido como casa de um pobre conservadorismo sem poder. Continua na Agência Carta Maior .

SOBRE O JORNALISMO ACREANO

Não estou entre os que culpam os jornalistas acreanos pelo tom monocórdico das notícias que circulam na nossa imprensa seringueira. Trabalhei demais nas redações de Rio Branco para saber que esse ponto de vista é só mais uma manifestação do velho preconceito de classe social. Preconceito cuja ambição histórica sempre foi culpar os trabalhadores pelos conchavos dos patrões. É evidente que o jornalismo praticado no Acre poderia melhorar, e muito, mas esta melhoria passaria necessariamente pelo aprofundamento da cobertura sobre a realidade do povo acreano: suas lutas, histórias, aventuras e sonhos. Pela vida coletiva como construção diária. Acontece que - e a chamada "classe dirigente" do Acre sabe disso - toda uma epopéia de esforço humano contra o abandono e a manipulação política viriam à tona. Antigos mitos seriam desconstruídos. Vários discursos, desacreditados. Diversas promessas, desmentidas. Esse jornalismo não seria agradável para os que sempre dependeram do dinheiro pú...