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SENSO COMUM

Ao conjunto de idéias e valores predominantes numa época, caracterizados por serem tomados como universais e insuperáveis, dá-se o nome de senso comum. Sua função é confirmar-se e reafirmar-se, geralmente por comparações com outras idéias.

A título de exemplo, um nobre da Idade Média afirmaria:

"O feudalismo é uma mãe. Uma mãe aceita um filho com todos os seus defeitos e manias. O feudalismo aceita o ser humano tal como é, não pretende "consertá-lo" ou "transformar" o homem num "homem ideal", como o fez o Republicanismo quando matou mais de 100 milhões de pessoas. Não somos robôs. O feudalismo respeita os vícios e virtudes da natureza humana, por isso foi o único sistema que prosperou. Amém."

Numa definição mais simples, o senso comum é a compreensão de todas as coisas por meio do saber social, ou seja, é o saber que se adquire através de experiências vividas ou ouvidas do cotidiano. Engloba costumes, hábitos, tradições, normas, éticas e tudo aquilo que se necessita para viver bem.

No senso comum não é necessário que haja um parecer científico para que se comprove o que é dito, é um saber informal que se origina de opiniões de um determinado indivíduo ou grupo que é avaliado conforme o efeito que produz nas pessoas. É um saber imediato, subjetivo, heterogêneo e acrítico, pois se conforma com o que é dito para se realizar, utiliza várias idéias e não busca conhecimento científico para ser comprovado.

Por exemplo: o nosso misterioso nobre medieval, no afã de defender as blandícias do conservadorismo, não consegue conceber que as instituições e a vida medieval foram erguidos contra contra o conservadorismo de outras sociedades, contra as quais bateram-se por meio de revoluções sangrentas. Sociedades escravagistas ou onde reinava o sistema de escambo primitivo conheceram de perto o poder da espada feudal, da mesma forma que estes sucumbiram para os canhões republicanos. Ao longo de todo o século XX exércitos constitucionalistas assassinaram milhões, inclusive com golpes de Estado na América Latina.

Por que isso acontece?

Acontece porque os interesses que movem uma sociedade não são os dos "sistemas", mas os das pessoas que o compõem. E até nisso há que se fazer um adendo. A maioria das pessoas, em todas as épocas, tem interesses mais simples: comer, dormir, beber, dançar, namorar etc. Mas há um pequeno grupo cujos interesses materiais advém da conservação da sociedade da forma como está, ou seja, da forma como se organiza o trabalho e a produção de renda da qual elas vivem.

A mudança, naturalmente, não as interessa e até assusta. Pela mesma razão, para essas pessoas, transformação é sinônimo de golpe, ou de "mudar a natureza do homem".

E assim a filosofia do senso comum renasce a cada época. Como a fênix da lenda grega, subsiste eternamente por ciclos insuperáveis de morte e renascimento, com as cores que lhe dão em cada época.

A filosofia do senso comum opera poderosamente também na contemporaneidade. Sua decantada virtude conservadora nada mais é do que a velha prática de vender os interesses de um grupo como os valores de toda a sociedade. Com isso, ficam eternamente insuperáveis.


Mais sobre o senso comum da nossa época aqui.

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