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A ESTÉTICA DA EXCLUSÃO

Os ataques a quatro jovens na capital paulista, as declarações de fúria incontida do ex-coronel Hildebrando Pascoal à imprensa e as mais recentes tentativas relativistas de justificar o injustificável no caso Mayara Petruso têm como ponto comum a mais profunda incapacidade de lidar com a integralidade e a pluralidade humanas.

Seria pragmático, ainda que tedioso, se essa questão pudesse ser esgotada como gostam os apresentadores de programas de jornalismo policial: em discursos etéreos sobre o quanto devemos nos respeitar, nos amar, nos compreender etc, especialmente quando se aproximam os festejos natalinos.

Mais efetivo, no entanto, é refletir sobre o nascedouro real de tais concepções: o estabelecimento da exclusão como valor cultural, como norma moral propriamente dita.

Que esquemas psíquicos de exclusão produzem comportamentos preconceituosos ou autoritários é uma constatação antiga das ciências da mente, especialmente da Psicanálise. A questão é o cerne disso. Na Idade Média a Igreja ensinava e os nobres acreditavam que a Terra era o centro do Universo. Na atual era burguesa o centro do universo é o Ego, o indivíduo. A substituição, necessária para marcar a passagem de um modo de produção para outro, esconde o que ambos guardam em comum: o segredo da dominação social.

Se na era medieval a Terra era o centro do Universo, segue-se que a Igreja, como porta-voz do Criador, tinha autoridade para impor a conversão de toda a Terra. Da mesma forma, se o centro do Universo é a vontade arbitrária do indivíduo, deduz-se que os valores privados é que constroem a vida social de tal forma que tudo o que possa contrariá-los ou limitá-los devem ser denunciados, expurgados e expostos em praça pública - notável reedição da triste sina de Galileu Galilei.

É próprio da hipertrofia do Ego considerar diferenças como inferiores (ou superiores, num pólo oposto, produzindo o fenômeno conhecido como servilismo). Da disseminação social do egoísmo vem o estabelecimento da violência como solução dos conflitos. O problema, então, não é o conflito, natural e necessário. O problema é a violência.

Por que a violência? Porque a hipervalorização da própria cosmovisão moral encarrega-se de substituir a compreensão do outro como um ser humano integral. O fato desse efeito ocorrer de formas e níveis diferentes na sociedade - desde o mero chiste até espancamentos, passando por artigos xenófobos na "grande imprensa" - indica apenas que as pessoas possuem outras referências ou influências, dada a sua condição de seres sociais.

No entanto, o resultado desse processo não deixa de ser uma estética da exclusão presente em praticamente todas as manifestações da vida social, mas que somente em casos mais notáveis assusta e faz pensar - o que, por si só, já é preocupante.

No caso da agressão em São Paulo, salta aos olhos a violência contra seres humanos devido a uma suposta condição sexual. No caso de Hildebrando Pascoal, o alerta surge diante da defesa explícita do assassinato como forma de vingança pessoal. Nas tentativas de justificar Mayara Petruso chama a atenção a incapacidade brutal de conceber nordestinos como seres humanos que, longe de trocar votos por pratos de comida, escolheram um projeto de Estado que lhes oferece inclusão gradual na dinâmica social da nossa época, isto é, no capitalismo.

Este último caso é bem mais grave porque além de ignorar a capacidade de reflexão de todo um grupo de pessoas na escolha do que é melhor para elas mesmas, tenta impor sub-repticiamente a sua concepção particular de indivíduo "consciente": aquele que, apesar de ter necessidades, aspirações e medos como todo ser humano, tem mais dinheiro. Essa tentativa evidencia, sozinha, o efeito mais nocivo do inflacionamento do ego nas sociedades burguesas: a tentativa de cirscunscrever, para toda a vida social, os valores que pertencem a uma única classe: a dos ricos.

Obviamente o resultado dessa tentativa não pode ser outro, senão mais violência. Ética negada não é ética, é ideologia e como tal serve à dominação, ao direcionamento das vontades.

Segundo Freud, o tenso equilíbrio entre Ego, Id e Superego só é rompido em situações de extraordinário dilaceramento humano. A vitória do Ego sobre o Superego, por exemplo, só se dá em situações de suicídio. Socialmente, a ordem que inscreve o Ego como o centro do Universo em benefício dos valores estratégicos de uma classe, tende a eliminar a pluralidade humana em benefício de uma ordem social fundada paradoxalmente no poder do mais forte.

Ao eliminar a pluralidade, a estética da exclusão elimina todas as possibilidades de diálogo, tolerância e aprendizado por convivência, criando uma ditadura moral em nome dos "bons costumes". A única visão verdadeira é aquela que tem no indivíduo, isolado, o seu dogma.

O problema não é então a violência desvairada da nossa época, especialmente nos países submetidos a experiências de flexibilização de leis trabalhistas e redução da cobertura de serviços públicos do Estado. O problema da nossa época, o que está por trás dos índices alarmantes de estupros em família, de assassinatos em série, de perda dos esquemas de sentido na vida, é a supervalorização do ego nas sociedades burguesas.

Nosso problema é o exclusivismo salvífico do individualismo. É a localização do centro do Universo.

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