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NARCISO


Os resultados da campanha eleitoral que tentou dividir o Brasil entre "esclarecidos" e "massa", entre "votos da razão" e "voto da emoção" continuam produzindo os seus efeitos nefastos.

Depois dos benditos mapas gêmeos, analisados em alguns blogs com tanta razão científica quanto a que a SS dispensava aos estudos de Joseph Mengele sobre a superioridade da raça ariana, eis que surge, como um novo capítulo do Livro das Artes Xenofóbicas Brasileiras, o episódio envolvendo a ex-estagiária de Direito, Mayara Petruso, que chamou nordestinos de vagabundos e sugeriu o assassinato "solidário" como medida de controle migratório.

Após ser processada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Mayara tornou-se o motivo da saída das sombras de uma organização até então pouco conhecida, o movimento São Paulo para os Paulistas. Além de defender Mayara, que teria cometido apenas um "exagero emocional", ela tratou de promover um movimento objetivando simplesmente a purificação do Estado de São Paulo. Outro grupo, o Juventude Paulistana, promete ir além e realizar protestos em locais públicos.

A questão subjacente a todas estas altercações, para além da óbvia condição pré-nazista dos seus integrantes, é o perigo da idéia de purificação aplicada à vida pública. Basta compreender que foi o argumento da purificação o segredo do sucesso de todas as formas de fascismo conhecidas: a purificação da Alemanha, por Hitler; da Itália, por Mussolini; de Portugal, por Salazar; do Brasil, pelos militares apoiados pelos EUA via Operação Condor etc.

A persistência desse raciocínio ao longo da história só não é mais surpreendente que a sua série de equívocos argumentativos. As organizações que propõem o exclusivismo paulista certamente não ignoram a enorme contribuição da mão de obra nordestina para a constituição mesma do Estado de São Paulo e de todo o País, assim como a imensa quantidade de nordestinos que vivem há gerações naquela região. No entanto, necessitam crer que a pujança econômica daquela região ocorreu sozinha, por milagre, como que por obra de algum deus ex machina.

Pois é esta visão glorificada de si mesmo, pejada de uma incrível superficialidade e egolatria, o pressuposto de todos os projetos fascistas. Todos, indistintamente, bebem na mesma fonte: a sua própria incapacidade de visão crítica, estrutural, sobre a realidade dada: a transformação da aparência em realidade e a defesa desta em algum tipo de salvaguarda da civilização.

Pra mim, esta superficialização da ética é o resultado direto de uma forçada simplificação dos complexos processos que regem a vida social. Não por acaso, o conservadorismo, em suas diversas manifestações e individuais, é que leva esta bandeira. Não por acaso, ainda, todos os candidatos a fascistas são também conservadores.

Isto ocorre porque, tal qual no fascismo, xenófobo como no caso desses episódios de SP ou sob outras inspirações, o que vale para a vida social na ótica conservadora é a ação isolada de indivíduos. Suas crenças são puramente individuais, seus valores não têm conexão nem contexto sociais, nem mesmo com a classe que o produz. Ou seja, tal qual os movimentos xenófobos paulistas necessitam abstrair a presença, o trabalho e a influência cultural, histórica e política dos nordestinos, inclusive de forma acumulada ao longo de algumas centenas de anos, para o conservador ou fascista o que vale é o indivíduo como agente transformador do mundo.

Marx já escrevia que, sob efeito do modo de produção industrial a sociedade tende a transformar-se numa "multidão privada".

Mas o processo de isolamento do indivíduo como o agente formulador ou empreendedor da realidade tende a muito mais. Se o indivíduo age no mundo livremente, sem compreender de forma ampla as suas conexões com a realidade, e as várias conexões da realidade consigo mesma (realidades locais, nacionais e mundiais, por exemplo), o resultado pode ser e tem sido invariavalmente catastrófico.

Só isso já é suficiente para evidenciar que o indivíduo não é uma mônada cuja vontade deve ser livre para agir visando seus próprios interesses. Nós, humanos, somos seres éticos, mas os valores da nossa época - do individualismo, do empreendedorismo para o mercado, da ação positiva e transformadora, da dominação sobre a natureza - tendem a transformar, cada vez mais, questões éticas em questões meramente morais (individuais).

Eis aí o verdadeiro perigo.

Se questões como sobrevivência, direitos, necessidades etc são conquistadas individualmente, segue-se então que não há mais qualquer imperativo ético para a política. Logo, os indivíduos é que são responsáveis pela sua própria miséria, são responsáveis pela violência que eles mesmos sofrem - já que não tiveram competência de produzir algo que os afastasse de tais coisas.

Evidentemente, este é o retrato de uma sociedade fratricida.

Fratricida e hipócrita: essa tendência à implosão do tecido social não se reconhece como tal. Acha-se, a exemplo dos jovens paulistas que querem SP só para paulistas, que são "valores da civilização", que devem ser defendidos porque "deram certo". A exemplo dos senhores feudais durante o Feudalismo, ou da cúria católica durante a Santa Inquisição, avaliam a realidade com as lentes dos seus próprios interesses ou pretensões. Por isso defendem que tudo deve ficar como está porque tem dado certo "apesar de alguns exageros".

Moral da história: o conservadorismo é a representação mais clara e triste de Narciso.

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