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O DIÁLOGO DO PODER

Na edição de hoje do jornal A Gazeta, do empresário marxista Silvio Martinello, há um louvor formidável a uma das principais invenções da humanidade: o diálogo. Em vinte e cinco linhas e meia muito bem escritas, o jornalista Nelson Liano explica por que os interesses dos movimentos sociais, do Estado e da iniciativa privada devem ceder lugar, quando em atrito, a uma concepção orgânica da vida social.

A tese fundamental é que radicalismos de qualquer lado, exatamente por pertencerem a alguma das partes em luta, devem ser apresentados como equivalentes em um amplo diálogo para que se encontre o entendimento comum. Suspeitando de interferências de ambições pessoais nas ameaças de radicalização, o autor ensina que a preponderância do coletivo, do todo, sobre interesses antagônicos, é uma verdade absoluta ao mesmo tempo em que nos informa: “verdades absolutas, na realidade, são típicas de sistemas ditatoriais”.

Mas o que poderia ser chamado de “ato falho” numa abordagem meramente psicanalítica, revela-se na verdade conseqüência de um sistema de idéias: Liano parte do princípio de que “encontrar uma nova identidade econômica e social” a partir do modo de produção vigente hoje não é interesse de uma das partes, nem está sujeita a projetos pessoais de poder.

É uma aposta e tanto, se considerada a vida material dos cidadãos. Por esse critério teríamos que rever, com certa urgência, a formação histórica do Estado do Acre – e, suspeito, não somente dele.

A questão é que as citadas partes em diálogo não o fazem abstraindo a sua situação de vida, suas condições reais de existência. O discurso da organicidade é fundamental para a manutenção de interesses dominantes: ele surge como o chamado para uma igualdade simbólica quando não há igualdade real. Por esta razão, na terrível iminência dos radicalismos de pessoas e grupos, o texto de Nelson Liano contrapõe “muita calma e disponibilidade para manter viva a chama do desapego e do entendimento”. Por que? Porque “o diálogo tem que ser explorado ao máximo na expectativa de que só possa estar esgotado quando houver a convergência”.

Longe de ser o mediador neutro de interesses contraditórios, o sonho de uma organicidade entre partes desiguais é na verdade o seu contrário: o discurso de um dos sujeitos do diálogo que busca, por meio da concessão de alguns espaços, a manutenção das condições mais amplas que produzem a desigualdade e a injustiça social. É um instrumento de dominação e controle da vida material, onde os sujeitos existem de fato. Em realidade, toda proposta de neutralidade (da qual a velha neutralidade jornalística faz parte) é um meio pelo qual o conservadorismo se realiza na vida social – diferente do progressismo, que o faz apresentando idéias e assumindo-as como suas, daí a pecha “radical”, em qualquer época.

A partir desses pressupostos materialmente dados é que se pode iniciar um diálogo realmente frutífero. Caso contrário, toda tentativa de diálogo sempre será fundada em um movimento duplo de concessão de espaços de manobra para a manutenção de uma ordem fundada numa falsa organicidade. Não pelo poder do diálogo, mas no diálogo do poder.


Para uma apreciação mais aprofundada sobre o poder da ideologia "organicista"e entender melhor como isso serve a interesses materiais reais, sugiro a leitura de István Meszáros em O poder da ideologia (ilustração acima). O autor fez uma introdução ao livro, Ensaios de negação e afirmação, que está disponível para download clicando aqui.

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