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ORDEM E PROGRESSO

Desde que o mundo é mundo existe um apelo para que as pessoas preservem a ordem da vida social. Que grupos não coloquem seus interesses acima do organismo coletivo. Que quando uns radicalizam, a maioria perde. Que é irresponsabilidade, por exemplo, colocar interesses de uma categoria grevista acima dos interesses da sociedade em geral. Que por lei - ah, a lei... - os interesses coletivos estão acima dos interesses particulares.

Esta análise se sustenta? Como poderia, se todas as categorias grevistas fazem parte da sociedade? Por exemplo: numa greve da educação, as reivindicações dos professores não beneficiam só uma categoria, mas toda a sociedade. E não estou me referindo a estudos rigorosos sobre a quantidade de ciclos de "aquecimento da economia" que um reajuste do salário desse segmento costuma provocar na circulação de dinheiro, melhorando a arrecadação de impostos e permitindo a ampliação de obras públicas (público significa "para todos").

A minha questão é: a esculhambação das carreiras do funcionalismo público brasileiro ao longo dos anos 90 ajudou a aumentar o fosso educacional entre educados e não-educados, isto é, entre ricos e pobres? Ou, em termos mais simples, os problemas da escola pública podem ser melhorados ou atenuados com professores mal remunerados, preocupados com a comida na mesa?

Se o sucateamento da educação pública está relacionado à disparidade de renda atual e se não é possível ter uma escola adequada com professores ganhando mal, não é possível compreender o nível de realidade da "questão orgânica da vida social" colocada acima.

A menos que considerem que em nome disso, desse dogma positivista, a educação pública deve se submeter à situação de descalabro que todos também reconhecem hoje. Mas, peraí, acaba de me ocorrer que exatamente a escola é defendida como o ponto de viragem para uma sociedade melhor, mais justa etc!

Por favor, me esclareçam: uma coisa não é o oposto da outra?

Na Pré-História a vida em sociedade se tornou possível porque o Homo sapiens, sob a proteção do grupo social, aceitou que o próprio grupo estabelecesse prioridades consensuais para benefício mútuo.

É engraçado que hoje não consigamos sequer pensar a respeito, quando o assunto é universo escolar. A escola de qualidade sempre foi a grande utopia emancipatória desde o Iluminismo. Será que a utopia hoje é outra?

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