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A SOCIEDADE COMO ORGANISMO

Por István Meszáros, na introdução ao livro O poder da ideologia, Boitempo Editorial

Desde que Menênio Agripa se dirigiu aos grevistas romanos, que ocupavam o Monte Sagrado no século VI a.C., vem sendo defendida em inúmeras ocasiões a concepção "orgânica" da ordem social. Segundo o tão reverenciado cônsul romano – que, em palavras características da Enciclopédia Britânica, era "conhecido como um homem de pontos de vista moderados" – cada camada social tem seu “lugar próprio” no grande organismo. As camadas inferiores devem obter sua satisfação a partir da "glória reflexa" e, independentemente de sua inferioridade, serem consideradas "igualmente importantes" para o funcionamento do organismo a que pertencem.

Evidentemente, esse foi um poderoso exercício de ideologia. Segundo a lenda, os que protestavam se comoveram tanto com os "pontos de vista moderados" do cônsul que, imediatamente, abandonaram sua postura de desafio coletivo e retornaram aos lugares a eles determinados.


Seja como for, pelo menos um fato histórico é inquestionável – eles se mantiveram vinculados aos seus "lugares próprios" na sociedade, nesses dois e meio milênios que se passaram desde o paradigmático Sermão do Estado, pronunciado por Agripa no Monte Sagrado, "participando", assim, da reprodução da ordem estabelecida através de todos os ajustamentos necessários às condições mutáveis da dominação.

O que nos interessa diretamente é o papel específico da ideologia nesse processo de
ajustamentos estruturais, pois a reprodução bem-sucedida das condições de dominação não pode ocorrer sem a mais ativa intervenção de poderosos fatores ideológicos, paralelamente à manutenção da ordem vigente.

É claro que a ideologia dominante tem interesse patente na preservação do status quo, no qual inclusive as mais clamorosas desigualdades já estão "estruturalmente" entrincheiradas e protegidas. Portanto, ela pode se permitir ser "consensual", "orgânica", "participativa" e assim por diante, reivindicando, assim, também a manifesta justeza da "moderação", "objetividade", e "neutralidade ideológica" (dominantes).

Ademais, o fato é que estamos discorrendo sobre sociedades de classes que são, necessariamente, divididas por contradições internas e antagonismos, independentemente do sucesso da reprodução do quadro estrutural hierárquico de super e sub-ordenação e da aparência de "comunalidade" através dos tempos. E já que os parâmetros de exploração de classes da sociedade se mantêm intocáveis, as várias teorias de "vida social orgânica", "consenso", "participação" etc são impotentes "postulados morais" (mesmo em grandes pensadores radicais como Rousseau), ou racionalizações apologéticas e legitimações do injustificável, desde Menênio Agripa até seus longínquos descendentes da nossa época.

Deve-se enfatizar que o poder da ideologia dominante é indubitavelmente enorme, não só pelo esmagador poder material e por um equivalente arsenal político-cultural à disposição das classes dominantes, mas, sim, porque esse poder ideológico só pode prevalecer graças à posição de supremacia da mistificação, através da qual os receptores potenciais podem ser induzidos a endossar, "consensualmente", valores e diretrizes práticas que são, na realidade, totalmente adversos a seus interesses vitais.

A esse respeito, a posição das ideologias conflitantes é decididamente assimétrica. As ideologias críticas, que procuram negar a ordem estabelecida, não podem sequer mistificar seus adversários, pela simples razão de não terem nada a oferecer – nem mesmo subornos ou recompensas pela aceitação – àqueles já bem estabelecidos em suas posições de comando, conscientes de seus interesses imediatos palpáveis. Portanto, o poder de mistificação sobre o adversário é privilégio exclusivo da ideologia dominante.

Para ler toda a introdução (9 páginas), clique aqui.

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