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SE ESSA MARCHA FOSSE MINHA...

O que faltou na Marcha da Liberdade deste sábado em Rio Branco? Comida, água pro povo? Música engajada, acrobacias? Teatro de rua, movimento estudantil?

Faltou combinarem com a única faixa populacional realmente interessada em mudanças sociais radicais. Onde estava o povo do Caladinho, do Taquari, do Wilson Pinheiro, os expulsos da Avenida Amadeu Barbosa, os jovens desempregados ou subassalariados da nossa "urbe"?

Aos que não sabem, uma pista: para sair de suas casas e chegar ao centro da cidade cada um teria que desembolsar para o ônibus 4,8 reais - 2,4 de ida, 2,4 de volta - do seu minguado salário mínimo.


Pediram liberdade, mas esqueceram de dizer o que diabos, afinal, é isso! Liberdade para quem? Ou melhor, liberdade para que?

Vejamos:

- os homossexuais querem a liberdade de não sofrerem estigmatizações no mercado de trabalho devido à sua orientação sexual.

- os índios lutam para trocar livremente mercadorias sem que isso signifique abandonar os hábitos da sua cultura.

- as lideranças camponesas querem que a agricultura familiar possa conviver com o agronegócio, de forma que ambos respeitem as leis, a ordem e os bons costumes.

Está faltando alguma coisa e esta coisa é: nenhuma dessas bandeiras representadas na Marcha tinha um caráter de rompimento. Alguém pode ter pensado que, juntas, elas teriam algum efeito desinibidor e mobilizador das classes mais pobres. Pelo contrário, o que lhes deu o caráter unificado, de luta "pela liberdade", foram exatamente as bandeiras de afirmação, de intensificação, de inserção nos processos da vida social contemporânea.

Abro um parêntese para anotar um fenômeno relacionado. No mesmo dia da Marcha, em outro horário, houve um evento evangélico exatamente no mesmo local. Houve quem, ao saber disso, louvasse as benesses da nossa democracia que permite tal artifício, mas creio que trata-se de uma brincadeira. Afinal, o evento religioso foi realizado justamente para se contrapor ao civil, já que disputa com ele a busca pelo ideal de "liberdade".

Fecho o parêntese. A questão colocada nesses movimentos é: como transformar eficazmente todas as formas de opressão humana em mercadoria, como ocorre nos países civilizados? É da firme convicção deste blogueiro que chegaremos lá um dia. Logo, tenhamos calma: basta continuar pressionando o poder público, os formadores de opinião, os homens de bem etc. Um dia eles cedem e todos poderão livremente virar mercadoria para atender os nichos e necessidades de mercado. E juntos louvarão, evidentemente, as benesses da nossa democracia aberta, inclusiva, cidadã.

Até lá, seria interessante pensar no óbvio: movimentos assim costumam ser esvaziados porque, na verdade, a maioria se conhece, pessoalmente até. Pessoas que mal se cumprimentam, passam ao largo nas ruas ou mesmo se odeiam abertamente (ou ocultamente) usam esses eventos "afirmativos" como termômetro para aferir o caráter "engajado" ou "desengajado" dos desafetos. Por que? Porque com isso ganham respaldo público para externalizar preconceitos ou discriminações contra as quais dizem lutar.

É um paradoxo? Talvez seja apenas, parafraseando Nietzsche, "humano, demasiado humano".

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