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A TIRANIA DAS UTOPIAS MORAIS

Por Bruno Kazuhiro, no Perspectiva Política

Dentre as constantes expectativas das massas humanas, as quais são expressas por meio de manifestações populares, desejos natalinos, discursos sentimentais ou modos insignificantes de auto-expressão, talvez a mais característica e onipresente seja a ‘Paz’ ou, melhor dizendo, aquilo que Kant chama de ‘Paz Perpétua’, uma espécie de Utopia vindoura, consequência natural da razão humana, na qual toda a Humanidade estaria unificada sob um mesmo sistema e a paz reinaria completa entre os homens.

É fácil traçar a genealogia dessa expectativa. Se analisarmos friamente, veremos que ela não passa de uma secularização iluminista das expectativas messiânicas relacionadas ao ‘Reino de Deus’ na Terra, no qual todas as aspirações e promessas dos Evangelhos se veriam realizadas. Todo o mundo se veria unificado sob o ‘Despotismo Esclarecido’ de um Messias, o qual imporia um perpétuo estado de paz entre os homens, e poria fim a todos os sofrimentos humanos por meio de uma espécie de ‘Comunismo Sagrado’.


Obviamente, não há lugar nessa Utopia para aqueles que simplesmente não estejam dispostos a se submeter. Essas expectativas são, supostamente, tão absolutamente boas e perfeitas, que qualquer um que se oponha é um monstro, um demônio, e seu destino só poderia ser o Inferno. Para os adeptos das Utopias Morais, todo opositor e dissidente é uma encarnação do Mal Absoluto e, portanto, toda violência e barbárie é completamente legítima e justificável.

Para testar e descobrir um desses adeptos, pode-se, por exemplo, citar a Destruição de Dresden por bombardeios anglo-americanos, que levou à morte de 500.000 civis alemães, ou o estupro de mais de 2 milhões de mulheres alemães pelas tropas soviéticas, e outros atos de barbárie tomados pelos Aliados durante e após a guerra que levaram à morte de 7 milhões de civis alemães; ou ainda o gradual processo de genocídio pelo qual passam os brancos na África do Sul e no Zimbábue. A reação de um indivíduo a esses fatos será revelador de seu caráter.

Em nome da Democracia Liberal e da Igualdade, não há extermínio e barbárie que seja injustificável, ainda mais quando a barbárie é travestida e mitificada como uma espécie de ‘justa vingança’ da ‘inocente vítima’. Como poderia dizer Nietzsche, o ressentimento mesquinho dos tipos humanos fracos contra tipos vistos como poderosos, quando alimentado pela ilusão auto-criada da própria ‘inocência’ e ‘bondade’, impele o Homem para os mais profundos dos ódios. Um erro passa a justificar o outro.

A Utopia da Paz em seu âmbito global só é possível por meio da sujeição de todos os Estados a uma única autoridade supra-estatal. Mas para que essa sujeição não culmine em uma ‘Guerra Civil Global’, para que a Ditadura Utópica Global perdure, toda e qualquer percepção de ‘Alteridade’ deve ser extirpada. Ou seja, qualquer noção de um ‘Outro’ deve deixar de existir, e ser substituída pela noção de um ‘Eu’ coletivo e absoluto que englobe toda a Humanidade.

Mas a percepção de ‘Alteridade’ deriva exatamente do fato das infinitas diferenças que existem entre os agrupamentos etno-culturais humanos. Então, para que a ‘Paz Perpétua’ seja instaurada entre os Homens, toda Diferença deve ser desintegrada. A Igualdade absoluta é a pré-condição necessária para a Paz Perpétua.

Mas vejam só, se a Utopia Moral da Paz Perpétua é absolutamente boa e desejável, não há, em absoluto, metodologia que não possa ser utilizada para alcançá-la, independentemente das supostas implicações morais de tais métodos. A Utopia Moral se sobrepõe a toda e qualquer outra consideração moral. Nada pode ser tão moral quanto a Utopia, e qualquer imoralidade, à serviço da Utopia, passa por tamanha transformação alquímica que é vista como absolutamente moral. É o tal “bem maior” justificando o “mal menor”.

O oposto também é verdadeiro. Atos, posicionamentos e comportamentos completamente naturais, quando estão dirigidos contra a consecução da Utopia Moral, são vistos como monstruosidades, mesmo quando os adeptos da Utopia realizam os mesmos atos. Se inimigos da Utopia prendem ou fuzilam terroristas e espiões que atuavam para desestabilização do governo e a realização de um golpe ‘democrático’, então eles estão realizando um ‘massacre’, ou ‘perseguindo opositores políticos’. Se adeptos da Utopia perseguem, prendem e condenam à morte, ativistas, pensadores e políticos, que lutam para impedir que sua cultura seja destruida pela globalização, então esses adeptos estão ‘combatendo a intolerância’, ou alguma falácia similar.

Para que a Paz Perpétua seja conquistada então, é necessária que toda a Humanidade seja transformada em uma massa amorfa, desprovida de características singulares. E para que isso seja efetivado não há medida que possa ser considerada imoral. E, considerando que hoje não há lobby mais poderoso do que esse, o lobby do ‘Governo Mundial’, não é ‘teoria da conspiração’ dizer que obviamente as pessoas influentes envolvidas nesse lobby vão usar essa influência, seja na economia, na política ou na mídia, para esmagar as Diferenças e impor sua Utopia Moral. É a pasteurização.

E, para isso, curiosamente, não é necessário realizar qualquer movimentação na direção da ‘Igualdade econômica’.

Essa modalidade de ‘Igualdade’ é colocada como a mais medíocre e irrelevante de todas elas, exatamente pelo fato de que seu objeto, a Diferença determinada pelo Dinheiro é a diferença mais ‘igualitária’ de todas e de modo nenhum impede ou dificulta a ascensão do ‘Governo Mundial’.

Ao contrário.

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