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VIOLÊNCIA NA POLÍTICA

Não foi a primeira vez, nem será a última, que a violência cotidiana ultrapassa a dimensão privada e invade a arena pública no Acre. O episódio entre o candidato a senador João Correia (PMDB) e o jornalista Demóstenes Nascimento (clique aqui) só é salutar porque demonstra, pela enésima vez, a velha regra do embate político desonesto: eliminação do mais fraco (leia-se: vai sobrar para o abestado do jornalista).

É por isso que o jornalismo no Acre ainda é "isento", não o sendo na maior parte do mundo. As batalhas campais produzidas nas campanhas exigem como pressuposto que os jornalistas, ao contrário do que ocorre nos EUA, na Europa (e na África, Oceania, Ásia etc), comportem-se como verdadeiros sacos de pancada. Qualquer pergunta mais ácida, qualquer provocação mais elaborada, pode virar argumento político da oposição ou da situação. Só nos casos mais graves parte-se para as vias de fato, mas nem isso é incomum também - basta lembrar de Washington Aquino X Arnette Guimarães, de Antonio Stelio X Roberto Filho, das gangues "vermelha" e "azul" na campanha de 2006, e por aí vai (o leitor de fora do Acre que me desculpe o vácuo, mas quem mora aqui vai entender).

A ocorrência de atos violentos nas campanhas eleitorais é recorrente entre nós, praticamente uma tradição. Equivocada, claro, mas uma tradição. Desnecessário dizer que é antiética, mas acho salutar lembrar que o seu nascedouro é a incapacidade brutal de compreender o próximo como um ser de convicções e idéias, quase sempre divergentes das nossas.

É somente quando convicções e idéias divergentes são tomadas como ofensas que a violência é utilizada como um mecanismo de defesa. A diferença ofende, agride. Logo, é preciso eliminar o perigo reagindo contra ele. Esta reação pode ser abstrata (palavras) ou física (socos e pontapés). Ou ambas, como foi o caso.

Dito isso, vale acrescentar que a intolerância com a reivindicação do outro é algo poderoso em nossa cultura pseudo-revolucionária. É quase um acreanismo. Provam isso as manifestações imediatamente seguintes à divulgação do vídeo em que João e Demóstenes fazem sua performance. A oposição, por exemplo, tratou de atribuir a agressão ao "estado totalitário da imprensa acreana", posando imediatamente como a sua libertadora.

Não que a imprensa acreana não seja um mecanismo de divulgação dos atos do poder que a patrocina (característica comum a todos os meios de comunicação que têm receita, despesa e folha de pagamento). Mas não creio que o Demóstenes "atacou o candidato propositalmente para mostrar até onde pode chegar o projeto político totalitário do PT", que é o que parece sugerir o discurso da oposição e do próprio João Correia.

Posso estar errado, mas isso sim me parece uma idéia absurda, tão bizarra que nem mesmo os marqueteiros da Companhia de Selva a comprariam - nem o Demóstenes, quero crer. Muito menos eu.

Para utilizar o expediente da violência é preciso ser treinado para ver o outro como algo (um obstáculo que se interpõe ou facilita o alcance de coisas), como meio ao invés de fins. Na política isso se chama - agora sim - totalitarismo. É de enorme vocação totalitária, portanto, considerar indivíduos como coisas a serem vencidas ou subjugadas por meio da violência, em vez de seres humanos portadores de idéias e valores, seja lá por que razões.

Como alguém pode usar a bandeira da liberdade de expressão negando a expressão alheia, sem ser chamado de cínico por isso? Melhor: que tipo de sociedade permite que a vitimização seja um recurso do "argumento político", em vez de flagrante desonestidade ética? Democrática é que não é. Não existe democracia sem liberdade e não há liberdade sem ética, que pressupõe ver os cidadãos como seres integrais, em vez de objetos sem opiniões e valores . Ou "lacaios".

Comentários

Caro Josafá,

De tudo que li, me senti na obrigação de tecer este comentário para, resumidamente, dizer quase a totalidade do que penso sobre a política:
A democracia, assim como toda relação humana sadia, só pode ocorrer com a regra da lealdade. Prá um ou prá outro não vale ser desleal.

Bom trablho.

Lindomar Padilha

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