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AINDA SOBRE CRISTIANISMO E PAZ SOCIAL

A propósito da postagem "Por que o Cristianismo não produz paz social" recebi o seguinte comentário do leitor Marcelino Freixo:

Me permita fazer uma correção. Pelo Evangelho, a salvação do homem é um ato de graça, e não o resultado do amor ao próximo ou mesmo a Deus. O amor a Deus e ao próximo é o resultado de ter a certeza dessa salvação, conforme está escrito em Efésios 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie". Acho que isso invalida o argumento central do seu texto, que o cristianismo ensina que o amor é condição para se ter algo.


Marcelino, entendi seu argumento, mas a questão central permanece e se agrava. Para entendermos como ocorre, farei um pequeno resumo. Minha postagem tinha o objetivo de mostrar por que o Cristianismo não poderia produzir paz social, por três razões:

1 - é uma religião que existe há dois milênios entre nós, dentro da qual toda a moralidade ocidental foi forjada (isto é, conhecer o Evangelho ou, como dizem, "aceitar Jesus" está muito longe de ser algo inédito na nossa cultura, todo mundo sabe do que se trata);

2 - é uma religião que necessita, pelo seu próprio corpo doutrinário, estratificar a sociedade para erguer uma moralidade ideal, marginalizando as demais e com isso criando o ambiente propício para o bullyng, a discriminação e as várias tentativas de teologização da política;

3 - é uma religião que produz a violência dizendo combatê-la, porque coloca o "próximo" como meio para se obter algo de Deus. Usar as pessoas como "meio" para se dar bem, em religião ou em qualquer outro espaço social, é precisa e exatamente a definição de violência (algo que viola a integridade do ser). Não me aprofundei nesse ponto, mas como é a base do seu questionamento, vamos lá:

É evidente que a tendência moderna de instrumentalizar as pessoas para subir na vida ou se dar bem é uma prática inerente tanto ao Cristianismo quanto ao Capitalismo. A diferença é que como o Cristianismo é uma religião há um mecanismo sublimatório para que a exploração não seja percebida imediatamente. Esse mecanismo é exatamente o discurso do amor - o contrário da exploração.

Mas é um discurso que não funciona porque, além da questão da exploração, existe o problema de se amar por decreto. Amar por decreto (para ser salvo, no caso) é uma contradição lógica e direta. Esta contradição, de ter que "enquadrar" o próximo para então poder amá-lo, é que produz o vício da hipocrisia e reforça o comportamento discriminatório. Este ciclo vicioso pode levar na pior das hipóteses ao vício em bullyng ou, na melhor das hipóteses, ao que Nietzsche chamava de "espírito de rebanho".

Agora vamos ao seu argumento: não sei se você percebeu, mas o fato da salvação ser um ato de graça da parte de Deus, sem contrapartida humana (já que o amor seria um ato de gratidão) joga a questão numa contradição bem sintomática do caráter de Petitio Principii (petição de princípio) das doutrinas cardeais do Cristianismo.

Esta contradição consiste no seguinte: se não há necessidade de contrapartida humana para a salvação, o resultado é que a própria necessidade de salvação é anulada. Por que? Porque, se Deus salva a quem quer e nada que o fiel fizer pode interferir nesta decisão, inclusive pecar, anula-se a diferenciação entre pecado e virtude.

Ocorre que, por incrível que possa parecer, a própria base do Cristianismo é que o pecado separa o homem de Deus. Foi para redimir os pecados da Humanidade que Jesus morreu e ressuscitou, correto?

Pode-se argumentar, evidentemente, que Deus por ser onisciente sabe quem será salvo, mas que por outro lado um "eleito" que comete pecado sofre algum afastamento temporário do plano de salvação.

Aí vem a contradição: se o pecado afasta a salvação do "eleito", consequentemente não lhe resta alternativa a não ser comportar-se como tal - se quiser ser salvo. Com isso, consegue-se um efeito notável: o pecado - ação humana - afasta a salvação do eleito, mas nem todo o amor - também ação humana - que este mesmo eleito possa nutrir por Deus ou pelo próximo teria qualquer efeito para a sua salvação.

Trata-se de outra circularidade, "cozida" exatamente para ter um duplo efeito: impedir que qualquer ação positiva possa ajudar na salvação ("para que ninguém se glorie"), e ao mesmo tempo garantir que qualquer ação humana negativa (o pecado) prejudique ou mesmo anule a mesma salvação. De uma forma ou de outra, o "eleito" perde aquilo que meu texto anterior apontou como a chave para a paz social: a autonomia.

Minha preocupação é a produção de autonomia social e a paz derivada desta. É com a aplicação de normativas morais cristãs na vida pública, na política. O Cristianismo, ao invés de produzir autonomia, produz antinomias, ou seja, sistemas contraditórios que reconhecem e até argumentam a necessidade de autonomia (vide todo o discurso da "liberdade em Jesus", de "ser livre do pecado e do mal" etc), mas que praticam ou produzem o contrário dela - e que não podem desvencilhar-se desta dubiedade sob pena de implodirem o edifício da teologia cristã.

Logo, e finalizando, a salvação pela graça divina não anula, mas complica, agrava, a relação doentia de considerar os indivíduos como meios para conquistas pessoais, violando-os. E aprofundando todo um esquema de vícios de hipocrisia amparados por circularidades e mecanismos de sublimação. Em última instância esse modelo, na tentativa desesperada de fazer uma "fuga para a frente" diante da acusação de promover a violência, acaba transferindo para o próprio Deus a responsabilidade de tratar o outro como meio: é Deus que condiciona a salvação à ausência de pecado...

Comentários

Caro Josafá,

Não há outra produção no "eleito" se não a hipócrisia. Isso é fato. E dela resulta toda a pregação de sua própria satisfação(teologia da prosperidade) por uso e até em detrimento do outro.

Belo raciocínio o seu!

Li8ndomar Padilha
Ismael disse…
Concordo em parte com os teus argumentos Josafá. E não dá pra usar esse espaço diminuto pra expressar isso. Há muito mais coisa por trás dessa "graça". De todo modo, acredito que a essência do evangelho não se encontra de fato na explitação da paz social através de Cristo. Se encontra justamente na inquietude que coloca um escolhido de Deus contra o pecado, em todas as suas facetas: religiosa, social, política, econômica, etc. Quem disse que o amor não se manifesta de modo virulento?
Jozafá Batista disse…
Lindomar,

A questão do "eleito" é uma consequencia. O problema é anterior, é o dogma da salvação. É ele que produz, além da figura do eleito, aquilo que Freud denominou de "moral castradora", expressão recuperada por Foucault na "História da Sexualidade": a idéia de que as formas de vivência humana devem ser resultados de heteronomia (de perseguir um ideal superior), em vez de autonomia (de construção do possível, o que seria compatível com a democracia).
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No entanto, vale dizer que o dogma da salvação é uma das colunas do cristianismo, tanto católico quanto protestante. Só é sistematizado de formas diferentes, e, claro, com níveis diferenciados de histrionismo moralizante.
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O efeito mais imediato e claro do salvacionismo cristão é a tentativa de circunscrever, na esfera pública (coletiva) o espaço dos "filhos de Deus". E, como todos os sistemas de idéias guiados por princípios morais (ou seja, onde não há autonomia do homem para construir algo), o resultado é "teocratização" da política.
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Evidentemente, isso é PERFEITO para formas de dominação carismáticas (no sentido weberiano), como a que se vê no Acre. De qualquer forma, a tendência é construir um espaço público regido por uma moral privada. O que tende, claro, à tragédia. Porque anula a democracia e anula a política.
Jozafá Batista disse…
Ismael,
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Escreva um texto e me envie, vamos dialogar! Você tem um blog? Se tiver, mande-me o link que faço a propaganda aqui pra você.
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A princípio, pelo que você escreveu, não tenho muito a acrescentar. Não duvido que as sistematizações teológicas para a questão da "graça" sejam muitas e variadas, mas a minha preocupação é mesmo com os efeitos destes conceitos na política. Especialmente como mecanismo de ascensão política, como ocorre no Acre hoje. Com plena anuência dos políticos.
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Fico imaginando o que ocorreria se existissem aqui várias religiões, africanas, orientais, hindus etc, e todas resolvessem submeter a política à vontade dos seus deuses. Seria um caos!
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Infelizmente (ou felizmente) esse tipo de coisa não ocorre porque geralmente Estados com esse nível de pluralidade religiosa são também menos provincianos. A própria pluralidade religiosa se encarrega de impedir que os diferentes rebanhos vejam a sociedade como algo a ser "convertido" ao seu evangelho, independentemente do que dizem os seus livros sagrados.
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Nesses casos a pluralidade democrática, que incentiva a democracia religiosa, ensina que o amor só pode se manifestar de modo virulento em sociedades cuja vida política é tradicionalmente virulenta e excludente. Provinciana.

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