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COMO ENQUADRAR UM PROTESTO

Fazendo um debate na televisão.

Foi o que percebi ontem, ao assistir o Gazeta Entrevista apresentado pelo robótico Allan Rick, da TV Gazeta.

O apresentador, os debatedores e os próprios organizadores do evento foram unânimes: é preciso evitar exageros. Fugir da violência. Não quebrar nada. Manter a ordem.

MANTER A ORDEM!

Não sei quanto a vocês, mas esta expressão ecoa até agora, como um mantra, na minha cachola.

Manter a ordem, pois, "o povo acreano é educado, pacífico e ordeiro", segundo o apresentador.

Carajo, o problema não é justamente a ordem?

Os fiscais ambientais que multaram o Jorge Neto, do movimento hip-hop, aplicaram a lei - a ordem.

A liberdade condicional dos secretários de Estado, presos pela Polícia Federal durante a Operação G7, é prevista legalmente, já que todos têm domicílio fixo e não têm antecedentes criminais. Tudo em ordem.

Os problemas com liberdade de expressão, que impedem o livre exercício de vozes contraditórias na imprensa acreana, tornando-a cada vez mais insuportavelmente igual, resulta da impossibilidade dos donos dos jornais ouvirem vozes dissonantes do poder - e, nos poucos casos em que o fazem, é para chantagear o poder visando fatias maiores da publicidade estatal. Tudo legal, previsto na ordem.

- Protestem, mas dentro dos espaços e condições fornecidos pela própria ordem para tal -, dizem.

Essa postura não se dá por acaso.

Toda novidade política, para surgir, precisa romper com a ordem estabelecida.

A democracia moderna surgiu contestando a ordem, na França de 1789.

As leis que hoje protegem a expressão no Brasil insurgiram-se contra a ordem dos generais de 64.

Os empates no Acre contestam até hoje os discursos dos diferentes governos sobre a "inclusão" da Amazônia na ordem do desenvolvimento mundial (a própria idéia de desenvolvimento está em xeque).

O que liga todos esses casos é: a contestação, a subversão da ordem.

O que ocorreria se, em cada época dessas, os manifestantes protestassem dentro da ordem?

Nada. Absolutamente nada.

Logo que apareceram, blogs e outros meios de interação virtual foram acidamente criticados pela imprensa tradicional, acusados de serem "rancorosos" e de "disseminarem informações distorcidas". Havia propagandas de jornalões na TV tentando apontar a própria credibilidade como salvo-conduto da verdade, ao melhor estilo da velhíssima falácia de autoridade.

Hoje, os blogs são não só a melhor fonte de informações sobre os movimentos sociais, como a mais legítima entre eles. São, simultaneamente, informadores e disseminadores. Reportam e debatem.

Subverter a ordem é a condição da novidade na política.

O ordeiro não inova, obedece. Aceita as regras do jogo. Aceita se enquadrar.

E, ao fazê-lo, vira apenas um trampolim para políticos com algum carisma e nenhum caráter.


"Explosão democrática", "a sociedade acordou", "verás que um filho teu não foge à luta", são as manchetes do dia seguinte aos protestos que se enquadram na ordem e não terminam, por isso mesmo, em um teatro de horrores de pancadaria e truculência policial - os chamados, não por acaso, "homens da lei". É o coroamento da normalidade, a cordialidade hipócrita de quem não deseja, no fim das contas, mudar qualquer coisa.

É tão apropriado esse discurso que mesmo membros do próprio governo do Estado parabenizam antecipadamente o Dia do Basta. Paradoxal? Não, sintomático: qualquer um, inclusive os próprios réus da Operação G7, pode ser contra a corrupção, vestir camisetas brancas, bater panelas, e, ainda, reclamar de censura à liberdade de expressão se não for aceito como igual no movimento (e fazer disso um discurso político poderoso, capaz de agregar muita gente).

Quando se luta pela ordem, quando não se pretende superar nada, quando o novo não se manifesta por meio da subversão, há resultados assim.


É isso o que espera movimentos sociais que pretendem combater o crime, o abuso, com a exigência de mais ordem.

No que isso vai dar, a não ser na eleição de novos políticos?

Não foi esse o percurso trilhado, precisamente, pelo próprio PT?

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