Demorei a comentar esse tema porque queria certificar-me de um detalhe e para isso era necessário esperar que outros blogueiros e também os jornais locais o fizessem antes.
Brasiléia é o principal refúgio dos manifestantes separatistas que temem ser presos pelo Exército boliviano. Alguns foram vítimas de agressões truculentas durante os confrontos.
Certo, isso todo mundo já sabe.
O que muitos não sabem, pois os jornais preferem não divulgar, é que a multidão de bolivianos que fugiu para a zona rural de Brasiléia não é formada apenas por separatistas.
Há "campesinos" (camponeses) entre eles.
E mais: em declarações à Red Erbol, o cônsul da Bolívia em Brasiléia, José Luís Méndez, afirmou:
“Os camponeses dizem que continuam sendo perseguidos e eu também digo isso porque temos medo (aqui no Consulado) porque alguns grupos têm feito mobilizações à noite e de madrugada, e também fazem chamadas telefônicas anônimas. Por isso pedimos mais segurança às autoridades brasileiras e fomos atendidos”.
Clique aqui para saber o "outro lado" dessa história.
O grupo de bolivianos que saiu no Jornal Nacional é formado por famílias de Cobija que participaram das manifestações contra o governo Morales. Trata-se de um direito político, obviamente, que só não pode ser exercido na vigência de estado de sítio (justamente o que vigorava nesses protestos, o que acabou ensejando a ocupação do departamento pelo Exército e a prisão do governador Leopoldo Fernández).
Por isso, há três equívocos na notícia global.
A primeira é que nem todos os refugiados são separatistas. A segunda é que não são "milhares de pessoas", como disse William Bonner. E a terceira é que o uso da força pelo Exército deu-se em um contexto de estado de sítio - embora nem de longe isso justifique o uso da força contra civis.
Clique aqui para ver uma matéria do jornal cruceño El Deber sobre os 400 refugiados separatistas de Brasiléia. Eles denunciam várias atrocidades e agressões - que na minha opinião deveriam ser investigadas e esclarecidas o mais rápido possível.
Seria ótimo para nós que a imprensa tivesse mais cuidado nessas coberturas. A situação política da Bolívia faz parte de um xadrez complicado, em que os dois lados usam todas as estratégias possíveis para "ganhar" a opinião pública.
Como no jornalismo não existe imparcialidade, resta ao repórter escolher o lado mais fraco: o lado dos trabalhadores.
A foto é da FM Bolivia.
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