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NOTÍCIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE

Vejamos o tratamento dado pelos jornais impressos de Rio Branco a dois textos: um press-release enviado pela Assessoria de Imprensa da Federação das Indústrias do Estado do Acre (FIEAC) e uma notícia da Agência de Notícias do Acre, do Governo do Estado.

Por que o texto do governo não é um press-release? Porque ele foi "chupinhado" - como diz minha ex-editora-chefe - do site do governo. O "chupinhador" tascou-lhe o velho Ctrl+C, Ctrl+V, que é bom que se diga, eu mesmo usei e muito durante minhas passagens pela editoria da TRIBUNA.

É uma prática comum, aliás. E totalmente legal quando o jornal publica a fonte que "chupinhou".

Voltemos aos textos. Primeiro, lembro que ambos foram escritos e disponibilizados nesta quarta-feira, 03.09, um dia antes da publicação (hoje). E foram originalmente publicados em seus respectivos sites:

- Hidrelétrica de Jirau vai gerar 10 mil empregos (link para a notícia original no site da FIEAC).

- Binho Marques debate investimentos estruturantes com Fiemg e Camargo Corrêa (link para a notícia original no site da Agência de Notícias do Acre).


Agora vamos conferir os jornais, lembrando que as observações a seguir referem-se aos textos publicados nos sites. Por várias razões, alguns veículos omitem na internet alguns textos que saem na edição impressa (principalmente nas seções de Nacional e Internacional):

A GAZETA: Publicou na íntegra, sem crédito de origem ou de autoria, o texto da Agência de Notícias do Acre. Confira:

- Governador Binho debate investimentos estruturantes com Fiemg e Camargo Corrêa


A TRIBUNA: Publicou na íntegra, com crédito de origem, os dois textos na mesma página. Confira:

- Binho debate obras de grande impacto


O RIO BRANCO: Publicou na íntegra, sem crédito de origem, o texto da Agência de Notícias do Acre. Confira:

- Binho debate investimentos estruturantes com Fiemg e Camargo Corrêa


PÁGINA 20: Publicou na íntegra, com crédito de origem, o texto da Agência de Notícias do Acre. Confira:

- Investimentos estruturantes


A publicação de releases na íntegra não é ilegal. Na verdade é a medida correta a ser tomada, desde que fique bem claro que trata-se do posicionamento oficial de um órgão, público ou privado, acerca de algo. Esse é um dos motivos da importância do crédito de origem.

A questão fundamental aqui não é a publicação de releases. Um jornal, veículo necessariamente plural, deve mesmo abrigar todas as formas de textos e posicionamentos, pois é justamente daí que nasce o debate democrático.

A questão fundamental é mais sutil: é a transformação de um ângulo da notícia na notícia inteira, como se um release enviado por uma empresa ou órgão público pudesse dar conta da imensa e complexa gama de relações sociais, políticas e econômicas que produzem um fato qualquer...

Essa complexidade omitida torna-se dramática quando a imprensa passa a ignorar todo o clamor social em torno da IIRSA, onde a construção de hidrelétricas é mero preâmbulo de um experimento multinacional de neo-desenvolvimentismo na Amazônia - mesmo com toda a destruição e miséria produzida em todos os Estados na última tentativa, há quase 40 anos.

Muitos repórteres, fotógrafos e editores são filhos de seringueiros expulsos de suas terras ou tiveram que vendê-las a preço de banana depois que a chegada do "progresso" repetiu aqui o seu velho procedimento de mais de 300 anos: substituir relações econômicas familiares locais, regionais e até inter-regionais por enormes redes mundiais de transformação e circulação de matéria-prima por meio da mão-de-obra assalariada. Um monstro que não cessa de engolir trabalho e trabalhadores para produzir exclusão e concentração de renda em escala astronômica.

Como podem, então, esses jornalistas ignorarem o tão importante brado de protesto de povos indígenas, seringueiros, agricultores e camponeses?

A resposta está novamente na imensa rede de interesses que se escondem atrás de um modelo de imprensa "imparcial" que nada é senão a evidência da sua opção de ignorar a lógica do plural, do contraditório, de interesses que não sejam os do patronato.

E aqui surge a grande, a fundamental questão, cuja resposta deixarei ao seu critério: como poderá o jornalista evidenciar esse estado - multifacetado, contraditório, pluralizado - em relação às hidrelétricas se as empresas jornalísticas dependem do dinheiro dos financiadores do projeto?

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NOTA

Clique aqui ou aqui para baixar um estudo detalhado sobre a IIRSA e a hidrelétrica de Jirau. Se quiser maiores informações dos movimentos sociais sobre a IIRSA, consulte os sites da Rede Brasil e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

A foto foi escandalosamente chupinhada do blog Jornalismo Unip Tatuapé.

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