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IDEOLOGIA E UTOPIA: UMA DIFERENCIAÇÃO FUNDAMENTAL

Em um comentário no Blog Língua, de Aldo Nascimento, eu afirmei que a política é o campo da construção do contraditório. O que isso quer dizer?

Quer dizer que a lógica do embate de idéias que só existe na pluralidade de valores e concepções é fundamental para a vida pública. Para Platão e Aristóteles, a vida plena e a felicidade só poderiam ser alcançadas pelo exercício sistemático do raciocínio e da discussão. O caminho para esse exercício é o diálogo, isto é, a busca do valor essencial da vida só se daria no debate com a alteridade, com o outro.

Para Kant, a ação política é o fim último da realização da sociedade e da própria humanidade, não apenas dos filósofos (como defendia Sócrates), mas de todos os cidadãos. A política é a essência da ordem inscrita no Cosmos para a manutenção do equilíbrio entre razão individual e razão coletiva, entre espaço privado e espaço público, entre as valorações axiológicas pessoais e o equilíbrio da História Universal.

Mesmo os neokantianos, apesar das justificadas divergências entre as escolas de Baden e de Marburgo, jamais reformularam o conceito segundo o qual a razão individual é incapaz de realizar-se totalmente no indivíduo, originalmente defendido na segunda proposição da Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita, do próprio Kant.

A tendência da política moderna, da qual o governo petista do Acre infelizmente faz parte, é substituir essa acepção ampla da política por outra: a política da concentração e manipulação do poder de um grupo sobre o todo social, como se fosse a própria quintessência da voz histórica.

Nesse aspecto, uma política fundada no diálogo contraditório, que apesar da contradição tem como objetivo alcançar a vida boa, a vida plena, é tida como ameaça a essa voz verdadeira e emancipatória. Uma voz que se autoprocolama a única representante da vida ética e da razão histórica kantiana (!).

De onde vem esse modo de pensar a política?

Vem da lógica da eficácia unilateral, do gerenciamento a-histórico, da filosofia burguesa do cidadão competente que se sobrepõe aos demais. Diferente da estética socrática, em que somente os filósofos poderiam compreender a essência da polis, e portanto agir de forma mais competente que os demais, a estética burguesa privatiza toda a política ao levar para a mesma a lógica do domínio por meio da concentração unilateral de poder - sua marca no campo econômico.

Curiosamente, a concentração unilateral de poder é a marca inequívoca dos principais regimes totalitários do século XX.

Como age essa estratégia, essencialmente antipolítica, na conquista da política?

Marginalizando dois conceitos fundamentais e necessários para a fundamentação do diálogo político: a utopia e a ideologia. Uma vez que os seres humanos são seres de paixões, de valores, de visões de mundo, a eliminação de qualquer vestígio de utopias é fundamental para que se funde a lógica da eficácia unilateral, a-histórica e privada.

Ao estabelecer como ideologias, isto é, como valores axiologicamente viciados (ou alucinações pessoais) determinadas idéias que lhe fazem frente, essa estética da eficácia insere-se, insidiosamente, no coração mesmo do processo político. E torna-se o câncer que aos poucos destruirá todos os esquemas da velha razão histórica (em oposição à razão individual) kantiana e neokantiana, substituindo-a pela concepção privada da vida pública.

O objetivo desse projeto, essencialmente totalitário, é que as idéias não mais sejam objetos de diálogo, mas inimigos a serem eliminados. Que a política não seja a construção social, mas um exercício de gerentes altamente especializados sobre a massa acéfala (ou a ser esclarecida, na versão "de esquerda"). Que a democracia torne-se, dentro ainda da aparência formal do aparelho democrático, uma ditadura civil.

Como diferenciar, portanto, os conceitos de ideologia e utopia?

Em seu livro Ideologia e Utopia, Karl Mannheim dedica-se a essa distinção. Ideologia seria o conjunto de concepções, idéias, representações, teorias, que se orientam para a estabilização, legitimação ou reprodução da ordem social vigente. Utopia, ao contrário, é o conjunto de idéias, representações e teorias que aspiram uma outra realidade, uma realidade ainda inexistente.

Em uma série de conferências realizadas em 1985, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/USP), o sociólogo brasileiro Michael Löwy tenta aprofundar essa diferenciação, propondo o termo "visão social de mundo".

Para Löwy, “visão social de mundo” é a soma de todos os valores, representações, idéias e orientações cognitivas que fundam e orientam as ações de um indivíduo e que podem ser de dois tipos:

1) Visões sociais ideológicas - Quando servissem para legitimar, justificar, defender ou manter uma ordem social vigente;

2) Visões sociais utópicas - Quando tivessem uma função crítica, negativa, subversiva, quando apontasse uma realidade ainda inexistente.

Em um livro chamado "Ideologias e Ciências Sociais", Michael Löwy conclui: "O ponto de vista do proletariado é mais amplo que o da burguesia", pela mesma razão que levou Kant a defender o aspecto supra-histórico da emancipação da razão humana: a formação de uma intersubjetividade livre, em contraposição à intersubjetividade burguesa fundada na lógica privada, filha do medo com o pavor...

O problema é que a formação da intersubjetividade livre é justamente o que ameaça um governo totalitário e apolítico. É, em essência, exatamente aquilo a ser destruído em uma política fundada na lógica da eficácia privada, uma vez que esta é necessariamente excludente e hierarquizante, alimentando-se da concentração de poder para maximizar a sua dominação pela eficácia, pela capacidade.

O poder justifica-se aí pelo próprio exercício do poder, uma vez que as vozes, mesmo proletárias, ao defender o retorno desse poder às mãos de seus mandatários históricos (os trabalhadores) são convidadas a "calar-se e bater palmas".

Ou então são chamadas a apresentar idéias novas para que o regime prove que a sua lógica da eficácia é de fato eficaz (um absurdo, evidentemente, uma vez que a crítica é justamente à estética privada, messiânica e totalitária, no espaço público).

Por essas razões, por defender um exclusivisimo salvífico, um endeusamento a-histórico, um messianismo suprapolítico, o autoproclamado Partido dos Trabalhadores (PT) deverá levar o atual prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim, a perder as eleições nesse ano em Rio Branco.

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