Pular para o conteúdo principal

A GREVE DOS BANCÁRIOS, A IMPRENSA E A CRISE

É sintomático que a primeira greve após o estouro da megacrise do capitalismo seja justamente a dos bancários, trabalhadores que lidam de perto com as falsas promessas desse sistema corrupto e alienante.

Mais de 5 mil agências bancárias encontram-se parcial ou totalmente paralisadas agora em todo o país, de acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Setor Financeiro (Contraf). A instituição coordena, direto de São Paulo (SP), as negociações com os representantes dos bancos públicos e privados.

É um poder imenso de mobilização, que só não é maior devido ao isolamento dos trabalhadores em suas respectivas "carreiras". Evidentemente trata-se de um erro, pois a crise que se avizinha atingirá a todos, indistintamente, comprometendo igualmente seus sonhos e ideais.

Mas esse isolamento também enfraquece cada categoria e seu conjunto de reivindicações específicas. Números do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos Bancários (Seeb/AC), por exemplo, mostram que há 15 anos havia no Acre 1,5 mil trabalhadores nesse setor. Hoje eles somam aproximadamente 730, espremidos em agências ridiculamente pequenas e, nas cidades maiores, com filas imensas praticamente todos os dias.

O velho modelo da "automação comercial", exigência da lei da lucratividade máxima que organiza o setor bancário em todo o mundo, prometeu mundos e fundos, mas só trouxe desemprego e muita frustração para os cidadãos que precisam do sistema bancário.

Trouxe também uma ética social aristocrática, excludente, que a todo o momento confunde democracia com plutocracia. Mesmo no Acre, onde a economia depende fundamentalmente do contracheque do servidor público, essa guinada social influencia cada vez mais o isolamento de categorias de trabalhadores em suas reivindicações, ao impingir aos movimentos de greve um caráter sombrio, desordeiro, desafiador do próprio corpo social... algo que precisa ser detido, enfim.

Os jornais de hoje refletem essa fascistização da vida social. Enquanto O Rio Branco, A Gazeta e o Página 20 ressaltaram os supostos prejuízos dos comerciantes com a greve, A Tribuna preocupou-se em mostrar o Ministério Público Federal (MPF), acionado por um grupo de sindicatos patronais, desdobrando-se para atender a "queixa" dos empresários.

Uma queixa no mínimo curiosa, uma vez que, além dos bancos, quaisquer dívidas bancárias podem ser pagas no Banco Popular (e representantes), Correios, lotéricas e até mesmo por depósito bancário, serviço que não foi suspenso.

A verdadeira reclamação dos "pequenos comerciantes" não está nas matérias, uma vez que a greve não impediu o pagamento de dívidas. O que a greve impediu foi a tomada de empréstimos bancários, fundamentais nessa época do ano não para os pequenos, mas para os grandes comerciantes que com esse dinheiro abastecem os cofres de jornais, TVs e rádios com propagandas de suas "festas de fim de ano".

Qualquer trabalhador da imprensa acreana sabe que esse lucro jamais vai para as mãos de quem realmente trabalhou por ele, isto é, os próprios trabalhadores de imprensa! O esforço diário de ouvir pessoas, preparar textos ou imagens, corrigi-los, diagramá-los e editá-los durante a greve dos bancários será recompensado amanhã com mais trabalho e um salário simbólico no fim do mês!

Enquanto isso, os donos das empresas, de comércio ou de imprensa, acumulam os lucros do poder de ação e mobilização dos seus funcionários (palavra que, nesse contexto, faz todo o sentido do mundo...).

Pergunto: por que trabalhar para isolar a categoria dos bancários, ao invés de denunciar toda a mancomunação de forças superiores que excluem os trabalhadores, sejam bancários ou jornalistas, do seu próprio poder? Por que os jornalistas não exigem, como os bancários já o fazem, a participação igualitária nos lucros das empresas jornalísticas?

Ou alguém acha que empresas funcionam graças aos seus "patrões"? Funcionassem, e toda a paranóia em torno da greve dos bancários sequer existiria...

É hora dos trabalhadores se unirem! O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já afirmou que alguns reajustes salariais previstos para 2009 podem ser sacrificados em benefício do "mercado". Várias grandes empresas brasileiras já declararam prejuízos e demissões em massa.

É hora de exigir mudanças. Mudanças que exijam justiça para quem realmente trabalha. Para a imensa maioria que realmente produz riquezas e que é sugada por terceiros.

Abaixo todos os parasitas!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

CORTADOR DE CANA APRESENTA SINTOMAS DE EXAUSTÃO E OUTRAS DOENÇAS

Por dia, trabalhador flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento para cortar outras 3.792, em pé ou curvado. Ministério Público do Trabalho de Campinas suspeita de morte causada pelo trabalho no canavial. Estudo brasileiro apresentado durante o 30º Congresso Mundial de Medicina do Esporte observou que um cortador de cana, ao longo das 8h de sua jornada de trabalho, flexiona a coluna 3.994 vezes e faz o movimento de corte da cana outras 3.792. Além disso, na maior parte do tempo, o trabalhador permanece em pé (45%) ou curvado (43%). “Observou-se que o cortador de cana de açúcar apresenta sintomas de exaustão e outras enfermidades causadas pela dificuldade de execução do seu trabalho”, destaca o pôster da pesquisa conduzida por Erivelton Fontana de Laat, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Paraná), e Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, da Universidade Metodista de Piracicaba (São Paulo). De acordo com o texto, desde 2004, o Ministério Público do Trabalho da ci...

A CONSCIÊNCIA E O OLHAR

Indagado por uma pesquisadora sobre o que gostaria de ver na televisão, um jovem engraxate da favela da Rocinha (Rio) responde: "eu". Isto é logo interpretado como uma reivindicação de espaço por parte de "meninos, como ele, na faixa dos 10 aos 18 anos, para os quais não existe nada em termos de teatro, lazer e cinema". A interpretação encaminha claramente a resposta do entrevistado na direção dos interesses de programação da instituição televisiva a que se vincula a pesquisadora. Seria a manifestação do desejo de um telespectador insatisfeito com a oferta habitual de conteúdos da televisão. O atendimento à demanda ratificaria as linhas gerais do juízo de função psicossocial que a organização televisiva costuma fazer sobre si mesma. Entretanto, para melhor entender a natureza do fenômeno da televisão, começaremos tomando ao pé da letra a resposta do pequeno engraxate: ele desejaria ver a si mesmo enquanto indivíduo concreto - não como índice de uma abstrata méd...