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A IIRSA E AS MEGAOBRAS DO PAC

Recebi alguns comentários por e-mail sugerindo esclarecimentos sobre a sigla que usei no último parágrafo da postagem anterior: IIRSA. Vamos lá:

Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional da América do Sul (IIRSA) é o nome dado a um acordo assinado em 2000 pelos presidentes dos 12 países da América do Sul: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

A sigla é em português porque o encontro dos presidentes se deu em Brasília (DF), onde foi mal e porcamente divulgado pela assim chamada "grande imprensa".

Na IIRSA os países se comprometeram a criar um plano unificado de integração para atingir os mercados extracontinentais, especialmente China, Índia, Japão e Estados Unidos. A IIRSA detalha passo a passo a integração da infra-estrutura nos setores de transportes, energia e comunicação de toda a América do Sul. A idéia é permitir e ampliar a livre circulação de capital internacional.

O afamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado pelo governo Lula e parcialmente boicotado pela oposição com a derrubada da CPMF, é apenas parte desse esforço. Na verdade, as megaobras previstas no PAC para o Acre, Rondônia, Amazonas e Pará, como usinas hidrelétricas, exploração e beneficiamento de petróleo, gasodutos e criação de grandes "carreteras" até o Oceano Pacífico são meros subitens do acordo.

Os objetivos gerais da IIRSA são bem mais ambiciosos e contam com patrocínio bilionário de instituições financeiras (aliás, bem conhecidas por quem já ouviu a expressão "Plano de Desenvolvimento Sustentável"): BID, BNDES, Banco Mundial, CAF e outras.

Numa definição básica, a IIRSA pretende inverter o fluxo geográfico das exportações brasileiras, usando rodovias que já estão em plena construção para chegar aos portos do Pacífico, e, de lá, atingir os mercados cativos e bilionários do Extremo Oriente.

Com isso, ao invés de se concentrar nos portos de Santos, Paranaguá, Rio Grande, Imbituba e outros, as exportações sairão do Brasil também a oeste, pelo Acre ou Rondônia, sobre uma poderosa rede de rodovias transnacionais.

A meta é baratear os custos atuais do transporte marítimo e dinamizar as relações econômicas dos países do Cone Sul, harmonizando-os ao ainda com os interesses das multinacionais.


Adivinhe o que está no caminho dessa inversão? Um doce para quem respondeu: a Amazônia. Aparentemente, porém, a Lei de Gestão de Florestas Públicas já está cuidando disso (vide a postagem anterior).

Em dúvida, leitor? Então veja documentos e textos aqui e aqui sobre a IIRSA, a verdadeira mãe do PAC - e do Plano de Desenvolvimento Sustentável do Governo da Floresta.

Boa leitura!

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