Pular para o conteúdo principal

RAZÃO TUTELADA E JORNALISMO NO ACRE

Já pensou o que aconteceria se o Movimento Abolicionista, que ocupou grande parte da crônica social brasileira na primeira metade do século XIX - e rendeu uma explosão de movimento criativo, das artes plásticas à literatura - se tivesse fiado na capacidade de diálogo do Estado para acabar com o horror da escravidão?

Ou se o movimento Diretas Já, ao invés de invadir as ruas das principais metrópoles brasileiras, resolvesse aguardar o momento mais propício num clima de diálogo e cordialidade com a "difícil situação estrutural" do "Estado revolucionário" brasileiro do final dos anos 80?

Já pensou o que haveria se, pela mesma época, o movimento de seringueiros do Acre resolvesse abrir mão dos empates em solidariedade à difícil missão dos governantes de reestruturar a máquina pública após 20 anos de ditadura?

Se por algum momento a crise da monarquia brasileira (e européia) fosse vista com um olhar um pouco mais solidário, a revolução republicana estaria aguardando até hoje. Da mesma forma a independência do Brasil. A revolução acreana também.

Todas as lutas que permitiram ao funcionalismo público algum tipo de conquista seriam facilmente anuladas se todos se permitissem ver, no meio do processo, parte de um Estado sempre muitíssimo comprometido com a paz social, com o diálogo, com políticas que atendam toda a sociedade e promovam a inclusão.

Sempre há quem defenda esse discurso, em cada época dos momentos históricos citados. Ler os jornais de outras décadas, especialmente no caso do Acre, é basicamente conferir como diferentes argumentos podem servir à mesma causa: o tutelamento da razão pelo poder.

Anular a divergência pública para tornar sociedade e Estado o mesmo discurso sempre foi a grande ambição de regimes totalitários (daí o nome), incluindo nazismo e fascismo. Estimular essa conduta é não somente criminoso, mas profundamente sintomático da nossa miséria política: na curta história do Acre - que em vez de história tem personagens míticos e heróis, como na Mitologia Grega - nunca houve espaço para a produção da política pelos indivíduos. As decisões cruciais para a política sempre vieram "de cima" e movimentos contestatórios sempre foram vistos com profunda desconfiança, medo e até agressividade.

No entanto, apelar para esse tipo de política é sempre muito rentável: garante que todos fiquem nos seus devidos lugares, dominadores e dominados. Ambos defendendo a ordem social como direito inato, seja como vontade de Deus, seja como compreensão contextual, faz com que a ordem social permaneça inalterada por tempo indefinido.

Claro que não estou me referindo mais ao passado, e sim aos nossos dias, quando cada vez mais questões políticas são "resolvidas" com doutrinas religiosas. Quando, contra problemas de ordem civil a sociedade coloca convicções dogmáticas - e o Estado não só aceita como estimula essa prática, como no recente discurso do governador Tião Viana, ao afirmar que a sociedade seria regida por leis e valores cristãos.

A democracia é o espaço da produção do possível? Ou é o tutelamento da razão? No Acre, ensina-se cada vez mais a segunda opção, com os argumentos mais cínicos. Como este, retirado do editorial do jornal A Gazeta de hoje:

Por isso mesmo, vale insistir que o Governo não pode se deixar engessar apenas por movimentos reivindicatórios de reajustes salariais. Dialogar, negociar o que é possível e justo sim. Porém, sem perder de vista que há demandas urgentes da sociedade que precisam ser atendidos e isso o atual Governo vem fazendo com acertos.

A idéia de que "movimentos reivindicatórios" (realizados por necessidades reais dos indivíduos, relacionados à comida, moradia, vestuário etc) possam "engessar" o Poder Estatal pode parecer absurda. Mas tem razão de ser.

A organização de uma sociedade no meio da floresta por puros motivos econômicos, destinada a exportar monocultura para os Estados Unidos, produziu no Acre um tipo peculiar de esfera pública fechada, hierarquizada, e por isso dependente da alienação das pessoas. Incontestável, a política tornou-se o espaço da autoridade pessoal. Isso ocorreu em duas fases seguidas. A primeira foi a do coronelismo de barranco, onde os patrões tinham poder de vida e morte sobre os seringueiros. A formação histórica desta fase foi fartamente documentada pelo genial historiador Pedro Martinello.

A segunda, cujo clímax vivemos hoje, é a do coronelismo paternalista. Nela, o Estado não faz mais política. O que se faz é o "cuidar". O Estado deixou de ser a instância de pública de discussão e deliberação... para virar nosso pai.

Eis aí a razão, mas... isso não deveria ser assustador por si só?

A defesa intransigente do tutelamento da razão, como se vê na imprensa acreana hoje, não deveria causar alguma espécie? Nem que fosse pelo coro com os mais sombrios fantasmas do passado, que alguns juram ter combatido?

Não assusta, não causa espécie em ninguém. E isso também é sugestivo, especialmente se levarmos em conta que, tal como há 100 anos, os jornais acreanos dependem fundamentalmente de verba pública para sobreviver.

Encontramos, portanto, um elo entre as duas fases do tutelamento da razão na história acreana.

Sugestivo. Muito sugestivo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE

Os movimentos autônomos de cunho religioso, notadamente os de cunho pentecostal e neopentecostal surgidos nos EUA desde meados do século XIX até a atualidade, são subprodutos de um capitalismo que necessitava de uma base ideológica para se sustentar em seus desatinos de exploração e criação de subsistemas para alimentar os mecanismos de dominação ideológica e manutenção de poderes da matriz do grande capital - os Estados Unidos. Na década de 70 praticamente todos os paises da América Latina estavam sob o domínio de sanguinárias ditaduras militares, cuja ideologia de cunho fascista era a resposta política à ameaça da Revolução Cubana que pretendia se expandir para outros países do subcontinente. Era o tempo da Teologia da Libertação, que, com seu viés ideológico de matriz marxista, contribuiu de forma efetiva para a organização dos trabalhadores e dos camponeses em sindicatos e movimentos agrários que restaram depois na criação do PT e do Movimento dos Sem-Terra (MST). A ação dess...

SOBRE O JORNALISMO ACREANO

Não estou entre os que culpam os jornalistas acreanos pelo tom monocórdico das notícias que circulam na nossa imprensa seringueira. Trabalhei demais nas redações de Rio Branco para saber que esse ponto de vista é só mais uma manifestação do velho preconceito de classe social. Preconceito cuja ambição histórica sempre foi culpar os trabalhadores pelos conchavos dos patrões. É evidente que o jornalismo praticado no Acre poderia melhorar, e muito, mas esta melhoria passaria necessariamente pelo aprofundamento da cobertura sobre a realidade do povo acreano: suas lutas, histórias, aventuras e sonhos. Pela vida coletiva como construção diária. Acontece que - e a chamada "classe dirigente" do Acre sabe disso - toda uma epopéia de esforço humano contra o abandono e a manipulação política viriam à tona. Antigos mitos seriam desconstruídos. Vários discursos, desacreditados. Diversas promessas, desmentidas. Esse jornalismo não seria agradável para os que sempre dependeram do dinheiro pú...

H.G. WELLS ENTREVISTA JOSEPH STALIN

Tradução livre do original em inglês , publicado em 23 de Julho de 1934. O autor de "Guerra dos Mundos", "A Máquina do Tempo", "A Ilha do Dr. Moreau" e outros clássicos da literatura moderna discute com o dirigente soviético sobre constitucionalismo e revolução socialista, economia planificada, ditadura do coletivo sobre o indivíduo, violência estatal, estratificação social e outras questões. Wells: Fico-lhe muito grato, senhor Stálin, por ter aceitado ver-me. Estive recentemente nos Estados Unidos. Mantive longa conversa com o Presidente Roosevelt e procurei saber quais eram suas idéias principais. Agora venho perguntar ao senhor o que está fazendo para mudar o mundo... Stálin: Na verdade, não muita coisa... Wells: Vagueio pelo mundo e como um homem comum, observo o que se passa em volta de mim. Stálin: Os homens públicos importantes, como o senhor, não são "homens comuns". Evidentemente, só a história pode determinar quã...